"A Maior Flor do Mundo" é o única obra infantil de José Saramago. Abaixo, o curta metragem de Juan Pablo Etcheverry com base nesse raro texto de Saramago, e com narração do próprio escritor português.
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domingo, 27 de junho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
José e Pilar
“José e Pilar” é o documentário do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, que registra o cotidiano do casal José Saramago e Pilar del Rio, sua companheira. O filme foi coproduzido pela 02, empresa de Fernando Meirelles, diretor que adaptou para a tela Ensaio sobre a Cegueira. O filme deve ter sua primeira sessão brasileira durante a Mostra de Cinema de São Paulo, que se realiza em novembro. Em Portugal, tinha estreia prevista para 16 de novembro, data do aniversário de Saramago. Abaixo, a entrevista com o diretor Miguel Mendes. Abaixo, dois trechos do filme: o primeiro, intitulado “Amor”; o segundo, “Trabalho”.
Amor
Trabalho
sábado, 19 de junho de 2010
Saramago conseguiu a proeza de ser um grande romancista moderno
19/06/2010-06h49 - Texto publicado na página da Folha de S.Paulo
LEYLA PERRONE-MOISÉS
ESPECIAL PARA A FOLHA DE SÃO PAULO
"Quando José Saramago chegar ao céu, Deus pai lhe fará cara feia, pois o escritor fartou-se de denegri-lo em seus romances. Mas Deus filho, que era também homem, advogará a seu favor, porque Saramago foi um humanista, quer em suas ideias, quer na prática de algumas das maiores faculdades humanas, a de imaginar e de narrar.
Desde seus primeiros romances, Saramago dedicou-se a "levantar do chão", por meio da palavra, os homens oprimidos e esquecidos por Deus pai ou pelos outros humanos mais favorecidos. E que palavras! Com ele, a língua portuguesa readquiriu, ao mesmo tempo, a majestade de um Vieira, o humor de um Eça de Queirós e a beleza poética do Pessoa prosador. Não por acaso, esse filho de analfabetos a alfabetizado tardio foi apelidado de "Imperador da língua portuguesa".
Qualquer que seja a posição dos leitores com relação às opiniões políticas do homem Saramago, ninguém pode acusá-lo de ter feito literatura partidária ou militante. O romancista defendeu suas ideias, não com pregação política ou lições de moral, mas por meio da melhor literatura de ficção, aquela que, nos prendendo com histórias envolventes e nos embalando numa linguagem musical, nos faz refletir sobre a história passada e a sociedade atual. Apesar da firmeza de suas ideias, em seus romances Saramago sempre tratou a história e a realidade com mão leve, num registro imaginário, por vezes fantástico, que levantando o leitor do chão, a este o devolvia mais lúcido.
A primeira coisa de que se devem lembrar os críticos de Saramago é que ele foi um narrador de parábolas. A parábola é uma narrativa alegórica, cujo sentido moral não é explícito, mas deve ser recriado pelo ouvinte ou leitor. Assim, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" demonstra o contrário do que pretendia o heterônimo pessoano: "Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo". E o "Ensaio sobre a Cegueira" ilustra o dito popular: "O pior cego é o que não quer ver". Sendo parábolas, é injusto que se cobrem dessas histórias qualquer verdade factual ou psicológica.
Saramago conseguiu a proeza de ser um grande romancista moderno, portanto difícil, e ter encontrado um grande número de leitores, principalmente jovens. Uma das explicações para sua popularidade é a de ter sido um bom contador de histórias. Sua dicção, como a de um Guimarães Rosa, é a da oralidade, que aprendeu com seu avô guardador de porcos e com os camponeses do Alentejo. Ouvir histórias sempre foi um dos maiores prazeres humanos, em qualquer cultura. E Saramago foi um mestre no manejo dos acontecimentos e dos diálogos, a ponto de prescindir de sinais de pontuação, tal era seu domínio do ritmo narrativo. Além disso, o fato de sua obra ter encontrado um grande público demonstra o quanto os leitores estavam carentes de histórias com sentido, e não apenas de entretenimento ou de auto-ajuda.
Ao longo do tempo, o estilo de Saramago evoluiu de um barroquismo tipicamente ibérico a uma simplicidade clássica. Que seus últimos romances não tenham sido tão bons como os primeiros, é algo que não se deve censurar num escritor. Quem escreveu o "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "História do Cerco de Lisboa", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes" já podia descansar em paz.
À primeira vista, as obras de Saramago parecem pessimistas, já que ele nos dá uma imagem sombria da sociedade. Mas, de fato, ele era um otimista, pois não se cansava de abrir os olhos dos leitores para uma possível mudança do estado atual do mundo. Quando escreveu romances históricos, não o fez para recriar o passado, mas para corrigi-lo imaginariamente. Na verdade, se o historiador não pode nem deve alterar o passado, o romancista tem a liberdade de reescrevê-lo, em função do presente e do futuro. E esta é a razão dos abundantes paralelismos e anacronismos nas obras "históricas" de Saramago, que não são meros jogos textuais, mas apelos à reflexão sobre o presente e o futuro. O mais sombrio de seus romances, o "Ensaio sobre a Cegueira", termina com uma alusão à esperança: "Esqueceste-te de falar da esperança de todos, Qual, A de recuperar a visão". Em sua evocação do passado ou em sua visão do presente, as obras de Saramago se abrem para um futuro que não seja mero destino ou fatalidade, mas que preserve os valores humanos, dentre os quais o da arte literária.
A visão de Saramago nos fará muita falta. Em "Manual de Pintura e Caligrafia", o narrador-personagem fala dos mortos: "Despeço-me dos mortos, mas não para os esquecer. Esquecê-los, creio, seria o primeiro sinal de morte minha. Além disso, após escrever tantas páginas, fez-se-me a convicção que devemos levantar do chão os nossos mortos, afastar dos seus rostos, agora só ossos e cavidades vazias, a terra solta, e recomeçar a aprender a fraternidade por aí". Saramago continua vivo em sua obra e na memória daqueles que tiveram a felicidade de o conhecer."
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Morreu José Saramago
Acabo de saber que morreu hoje, dia 18 de junho de 2010, o escritor português José Saramago.
Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o único autor em língua portuguesa a receber tal honraria, além de escritor de imenso talento e de estilo peculiaríssimo, unicamente seu, era portador de um ideário humanista que influenciou milhares de pessoa mundo afora.
O pensamento de Saramago, influenciado pelas concepções comunistas, ia muito além do marxismo vulgar, das explicações economicistas e classistas ou do ateísmo. O que diferenciava Saramago, sobretudo, era o alcance de sua inteligência para abarcar a essência do humano, com suas mazelas e belezas infinitas. E, apesar dos pesares, apesar, inclusive, de o próprio escritor querer se mostrar um pessimista incorrigível, sempre havia um quê de esperança ao final de seus escritos: contos, romances, peças de teatro, poesia.
Eu, particularmente, sinto-me um pouco órfão com a morte de Saramago. Aprendi a apreciá-lo, adaptando-me a seu estilo, digamos, diferente – um fluxo narrativo veloz, em que se confundem personagens, autor, diálogos, narrações, comentários, sem travessões e quase tudo em um único parágrafo –, desde que no meu aniversário em 1997 fui presenteado por meu primo Arnaldo com o livro “Todos os Nomes”. Não consegui mais deixar de ler todos os romances publicados doravante, até o último, “Caim”. Também fui atrás de livros anteriores: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Jangada de Pedra”, “Memorial do Convento” e meus preferidos: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Levantado do Chão”.
Em 2008, quando Saramago esteve no Brasil para lançar “A Viagem do Elefante”, fiz uma verdadeira via-crúcis em sua perseguição. Assisti à cerimônia de lançamento no Sesc Pinheiros, à Sabatina da Folha de São Paulo, ao lançamento da exposição “A Consistência dos Sonhos” no Instituto Tomie Ohtake (a foto acima foi tirada lá, quando o escritor dava uma entrevista para a televisão). Confesso que fiquei frustrado por não ter conseguido uma dedicatória em meu livro. No entanto, fiquei sinceramente emocionado pelas oportunidades de estar frente a frente desse escritor que me é tão caro.
Sei que não terei mais a felicidade de ler um novo livro de Saramago. Porém, posso reler os antigos e ler os que ainda não li. A propósito, começo hoje a ler “História do Cerco de Lisboa”, que ganhei de presente de minha amiga Talita – engraçado, todos os meus amigos sabem que sou um contumaz “saramagueano”.
Não sei por que, de cara associei o Senhor José, personagem de “Todos os Nomes”, o livro que me fez descobrir Saramago, à figura do seu autor. E assim me despeço:
Senhor José, onde quer que esteja – me desculpe se não consigo compartilhar de seu ateísmo –, muito obrigado pela sabedoria, pelo prazer da leitura, especialmente, pelo prazer com a nossa língua portuguesa, que você foi capaz de levar a milhares, talvez milhões de leitores mundo afora. Eu, humildemente, coloco-me entre eles. Saiba que deixa, além do incomensurável legado da literatura e do pensamento humanista, algo que só nós, os que falamos e pensamos em língua portuguesa, podemos entender: saudade.
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