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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Formalismo


Vladimir Safatle





A morte de Décio Pignatari nos permite, mais uma vez, lançar luzes sobre o movimento concretista e os desdobramentos da experiência literária nacional. Pois o concretismo parece ter se imposto como o último momento da literatura brasileira a abrir espaço a uma produção capaz de refletir, com grande capacidade especulativa, suas decisões formais e seu lugar histórico.

Servindo de referência não apenas para a poesia, mas também para as artes plásticas e a música, o movimento concretista merece que nos debrucemos mais uma vez sobre ele.

Sua procura em mostrar, como dizia Maiakóvski, de que "sem forma revolucionária não há arte revolucionária", talvez seja uma das expressões possíveis para uma espécie de "programa comum" tão presente nos anos 1950 e 1960 no Brasil e que gira em torno da necessidade de superação do atraso.

O "formalismo" nunca foi alguma forma de pregação autista da autonomia da obra de arte. Jacques Rancière compreendeu isso muito bem quando lembrou que, em toda discussão sobre a autonomia da obra de arte, sempre ressoou a crença em uma comunidade por vir. Crença de que a arte, quando fala de si mesma, pode fornecer os delineamentos de um vínculo social renovado.

Pois esse aparente retorno da linguagem sobre si mesma produzido pela arte é sua maneira de expressar a consciência do esgotamento da força expressiva de nossas convenções, consciência do desabamento do mundo que, até aquele momento, nossa linguagem suportou.

Ninguém mostrou isso de maneira mais bem-acabada do que Mallarmé, não por acaso uma das referências maiores dos concretistas, juntamente com Ezra Pound, Cummings, Maiakóvski e outros.

O mesmo Mallarmé que procurava a força de anulação própria a um poema que não teria mais medo de dizer: "Nada terá tido lugar a não ser o lugar". Ou seja, só flertando com o grau zero que podemos começar a criar.

Que tais preocupações com a forma estética aparecessem no Brasil dos anos 1950, isso deve ser creditado à consciência de que apenas esse retorno à crença na potência disruptiva da pura forma poderia fortalecer as direções de nossa experiência modernista. No fundo, o concretismo sentia a urgência de mudar as estratégias de nossa produção artística, talvez muito voltadas à procura da afirmação de nossa nacionalidade.

Todas essas discussões são, ainda, profundamente relevantes. Como se elas tivessem ficado no ar à espera de um desdobramento, de alguma forma de aprimoramento. Como se algo de nosso país tivesse, por alguma razão bizarra, parado no momento de Décio Pignatari.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/12/2012.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Autran Dourado

Carlos Heitor Cony





No último domingo, morreu Waldomiro Autran Dourado, mineiro, 86 anos, nascido em Patos de Minas, autor de uma obra que vem sendo estudada, aqui e no exterior, apesar de sua discrição, que o tornou privilégio de poucos, na medida em que se dedicou quase integralmente ao ofício de escritor. Dono de um estilo inconfundível --mais uma técnica do que um estilo--, não cortejou a popularidade nem fez parte de grupos, isolando-se em seus contos e romances como o artista que foi.

Apesar de seu temperamento, avesso a qualquer tipo de palco, Autran conseguiu o reconhecimento crítico expresso num elenco de importantes prêmios internacionais. Um de seus livros, talvez o mais conhecido, "Ópera dos Mortos", foi apontado pela Unesco para integrar a coleção de obras representativas da humanidade.

Outro de seus romances, "Os Sinos da Agonia", foi escolhido para os exames de "agrégation" das universidades francesas.

"O Risco do Bordado" é uma obra-prima pelo tecido que lembra uma aranha a fiar sua teia, silenciosa, perfeita em sua estrutura muitas vezes luminosa.

Difícil catalogar Autran Dourado em qualquer escola ou geração. Como mineiro, pode lembrar Cornélio Pena ou mesmo Lúcio Cardoso. Não inventou palavras, mas soube usá-las de forma magistral, rompendo as frases de maneira tão pessoal que qualquer um de seus textos pode ser facilmente identificado. Não criou uma linguagem, como Guimarães Rosa, mas a usou de forma tão pessoal que o torna original, para não dizer único.

Secretário de imprensa durante o governo de JK, integrou a brilhante equipe liderada por Álvaro Lins e que contava com nomes de relevo no panorama cultural da época, como Augusto Frederico Schmidt e Antonio Houaiss.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 02/10/2012.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Em discussão: o racismo de Monteiro Lobato




No contexto

Luis Fernando Verissimo



Minha filha estava lendo uma história do Monteiro Lobato para a minha neta e parou quando chegou num trecho que falava na tia Nastácia. Hesitou, sem saber se lia o que estava escrito ou se exercia sua prerrogativa de leitora e mãe e pulava o trecho. Decidiu-se pela censura. Não me lembro se cheguei a ler Monteiro Lobato para meus filhos, mas tenho certeza de que não teria a mesma hesitação da Fernanda. Não me ocorreria que o texto era racista. Ou talvez ocorresse e eu o desculpasse, pois seria apenas um detalhe que em nada diminuía o imenso prazer de ler Monteiro Lobato. E escrito numa época em que o próprio autor não teria consciência de estar sendo ofensivo, ou menos que afetuoso com sua personagem. Entre os anos em que eu lia Lobato e hoje mudou tudo no mundo, inclusive o contexto em que o racismo, consciente ou não, é encarado.

E não é preciso ir muito longe atrás de mudanças no contexto. Não faz tanto tempo assim que boa parte do humor na televisão brasileira era feito em cima de estereótipos caricatos de raças e minorias. O negro era sempre o "negrão" careteiro e não muito inteligente, o judeu era sempre um usurário atrás da prestação, o homossexual era sempre um grotesco. E era tudo inocente, baseado em preconceitos herdados e em hábitos culturais que ninguém questionava, já que era humor, não era por mal. Hoje, no contexto atual, está havendo reação das partes que se sentem afrontadas, o que é ótimo - quando não é exagerada. No caso do "racismo" do Monteiro Lobato, minha posição sobre como o autor deva continuar sendo leitura deliciada das crianças apesar dos trechos abomináveis é um decidido "Não sei". Fala-se que nas edições adotadas nas escolas conste uma explicação que coloque os termos repreensíveis no contexto. Não sei. O essencial é que não se prive nenhuma criança brasileira de ler Monteiro Lobato.

Defina-se. (Da série Poesia numa Hora Dessas?!)

Defina-se ligeiro.
Não seja mineiro.
O melhor quem é,
Messi ou Pelé?
Bem passado ou mal?
Internet ou jornal?
Água sem gás ou gasosa?
Lewandowski ou Barbosa?.

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 20/09/2012.


* * *

Analfabetismo histórico

Hélio Schwartsman



O movimento negro, bem como outros grupos que tentam reduzir os níveis de intolerância na sociedade, tem toda a minha simpatia. Isso dito, é ridículo o que estão tentando fazer com Monteiro Lobato. Se a iniciativa legal, que já chegou ao Supremo, prosperar, o autor poderá ter parte de sua obra banida das bibliotecas escolares.

Não há a menor dúvida de que Lobato se utiliza de expressões que hoje soam rematadamente racistas, como o termo "macaca de carvão", para referir-se à Tia Nastácia. A questão é que estamos falando de escritos dos anos 30, época em que quase todo mundo era racista. E, se há um pecado mortal na crítica literária e na análise histórica, é o de interpretar o passado com os olhos de hoje.

"Não sou nem nunca fui favorável a promover a igualdade social e política das raças branca e negra... há uma diferença física entre as raças que, acredito, sempre as impedirá de viver juntas como iguais em termos sociais e políticos. E eu, como qualquer outro homem, sou a favor de que os brancos mantenham a posição de superioridade."

Odioso, certo? Também acho. Mas, antes de condenar o autor da frase ao inferno da intolerância, convém registrar que ela foi proferida por Abraham Lincoln, o presidente dos EUA que travou uma guerra civil para libertar os negros da escravidão.

E Lincoln não é um caso isolado. Encontramos pérolas racistas em ditos de Gandhi e Che Guevara. Shakespeare traz passagens escancaradamente antissemitas, Eurípides era um misógino e Aristóteles defendia com empenho a escravidão. Vamos banir toda essa gente das bibliotecas escolares?

A verdade é que todos somos prisioneiros da mentalidade de nossa época. Há sempre um horizonte de possibilidades morais além do qual não conseguimos enxergar. Aplicar critérios contemporâneos para julgar o passado é uma manifestação de analfabetismo histórico.


helio@uol.com.br  

Publicado na Folha de S.Paulo, em 19/09/2012.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não se pode tratar alunos como meros espectadores ingênuos

Noemi Jaffe




A palavra ficção vem de "fingere", que, no inglês, derivou também em "finger", ou dedo, em português. Isso porque era com os dedos que os artistas da antiguidade modelavam o barro para dar a ele formas inventadas.

Atualmente, como produto dessa história de modelagens e representações, ficção é praticamente sinônimo de "mentira", "fingimento": são formas criadas pela mente humana.

É de se estranhar, portanto, para dizer o mínimo, que alguns educadores, entre cujos objetos de trabalho está a invenção verbal, queiram censurar a obra de Monteiro Lobato, de Dalton Trevisan, de Jorge Amado ou de quem quer que seja, por conterem alusões racistas, pornográficas ou afins.

Antes de tudo, de qualquer argumentação histórica ou contextual, as obras desses autores, sob ameaça de censura, são invenções ficcionais, todas perfeitamente delimitadas por esse escopo.

Nem os alunos são ingênuos a ponto de achar que uma narrativa literária é a verdade e nem os professores -espera-se- vão abordar essas histórias como se elas o fossem.

Quando um professor se depara, em sala de aula, com qualquer tratamento ficcional de teor divergente das Leis de Diretrizes e Bases, que, entre outras coisas, proíbem o ensino de conteúdo racista, é só mostrar aos alunos que:

1) é ficção; 2) a língua é um organismo vivo, passível de mudanças; 3) os hábitos comportamentais e literários também se modificam; 4) um autor e sua obra não podem ser julgados por afirmações ficcionais e contextualizadas.

Na verdade, trata-se de uma ótima oportunidade de se discutirem os limites entre a realidade e a ficção e o significado das construções politicamente corretas, que muitas vezes mais disfarçam do que educam.

Isso, aliás, independe de faixa etária ou econômica. As crianças e adolescentes brasileiros são suficientemente preparados pelo cinema, a televisão, a internet, a vida e a própria literatura para fazerem a distinção entre o real e o não real. Não se pode tratar os alunos como se fossem meros espectadores, ingênuos e influenciáveis.

LEITURA ATIVA

A leitura ativa é aquela que possibilita ao aluno ler criticamente, compreendendo o tema, a linguagem e as mudanças sociais e históricas.

Se fosse o caso de censurar liminarmente preconceitos ficcionais, hoje não leríamos Madame Bovary e provavelmente parte da Bíblia poderia ser vetada.

A literatura -e a arte- são territórios onde cabem o erro, o preconceito, a divergência e a loucura.

Isso não deseduca, mas, ao contrário, prepara os alunos para questionarem a si mesmos e ao mundo.


NOEMI JAFFE é doutora em literatura brasileira pela USP, ex-professora de literatura em colégios particulares em São Paulo e autora de "Quando Nada Está Acontecendo" (Martins), entre outros.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 11/09/2012.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O que discutir sobre o polêmico livro?

Pasquale Cipro Neto


Em 1988, eleita prefeita de São Paulo, a professora Luiza Erundina nomeou Paulo Freire secretário da Educação do município. Antes de assumir, o consagrado educador disse mais ou menos isto: "A criança terá uma escola na qual a sua linguagem seja respeitada (...) Uma escola em que a criança aprenda a sintaxe dominante, mas sem desprezo pela sua (...) Precisamos respeitar a sua sintaxe mostrando que sua linguagem é bonita e gostosa, às vezes é mais bonita que a minha. E, mostrando tudo isso, dizer a ele: "Mas para tua própria vida tu precisas dizer a gente chegou em vez de dizer a gente cheguemos". Isto é diferente, a abordagem é diferente. É assim que queremos trabalhar, com abertura, mas dizendo a verdade".

A declaração de Freire causou barulho semelhante ao que causou (e ainda causa) o livro "Por uma Vida Melhor", em que se mostram fatos relativos às variações linguísticas. Nele, dá-se como exemplo de norma popular a frase "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado". Dado o exemplo, explica-se isto: "O fato de haver a palavra os (plural) indica que se trata de mais de um livro. Na variedade popular, basta que esse primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente". O livro prossegue: "Reescrevendo a frase no padrão culto da língua, teremos: "Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados". Você pode estar se perguntando: "Mas eu posso falar 'os livro'?" Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico".

Há uma certa contradição na explicação, já que na frase popular a forma verbal ("estão") está no plural. Nessa variedade, o que se usa é "tá".

O caso aborda no livro é tecnicamente chamado de "plural redundante". Tradução: na forma culta ("Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados"), todos os elementos que se referem a "livros" (núcleo do sujeito) estão no plural (os, ilustrados, interessantes, estão, emprestados). É assim que funciona a norma culta do espanhol, do português, do italiano e do francês, por exemplo. Em francês, o plural redundante se dá essencialmente na escrita; na fala, singular e plural muitas vezes se igualam.

Em inglês, pluraliza-se o substantivo; o artigo, o possessivo e o adjetivo são fixos (na escrita e na fala). Quanto ao verbo, a terceira do singular do presente é diferente das demais pessoas em 99,99% dos casos; no pretérito e no futuro, há apenas uma forma para todas as pessoas.

O fato é que a ausência do plural redundante não se restringe à variedade popular do português do Brasil. Também é fato que, apesar de algumas afirmações pueris (""Mas eu posso falar "os livro'?" Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico"), em nenhum momento o livro nega a existência da norma culta, como também não se nega a mostrá-la e ensiná-la. Há vários exercícios em que se pede a passagem da norma popular para a culta.

Definitivamente, não se pode dizer que o livro "ensina errado". O cerne da questão é outro. O que expliquei sobre o exemplo do livro é assunto da linguística, que, grosso modo, pode ser definida como "estudo da linguagem e dos princípios gerais de funcionamento e evolução das línguas" ("Aulete"). A linguística não discute como deve ser; discute como é, como funciona. O que parece cabível discutir é se princípios de linguística devem ser abordados num livro que não se destina a alunos de letras, em que a linguística é disciplina essencial. Esse é o verdadeiro debate. Não faltam opiniões fortes dos dois lados. É isso.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 26/05/2011.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Prêmio Jabuti vai premiar apenas os primeiros

Após o imbróglio do ano passado, quando o livro “Leite Derramado” (Cia. das Letras), de Chico Buarque, foi o 2º colocado na categoria melhor romance – vencida por Edney Silvestre, com “Se Eu Fechar os Olhos Agora” (Record) – e venceu o grande prêmio de ficção, a Câmara Brasileira do Livro anunciou mudanças no Prêmio Jabuti.

A partir de agora, apenas os primeiros colocados em cada categoria concorrerão ao grande prêmio de ficção e ao grande prêmio de não-ficção.

Mais simples. E muito mais lógico.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Morre o escritor Moacyr Scliar


* Extraído de: http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/agenciaestado/2011/02/27/morre-aos-73-anos-o-escritor-moacyr-scliar.jhtm


O escritor Moacyr Scliar, que havia sofrido um acidente vascular cerebral isquêmico (AVC) e estava internado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre desde 17 de janeiro, morreu à 1 hora da madrugada de hoje. Segundo boletim médico, Scliar, que estava com 73 anos, morreu de falência múltipla de órgãos. Scliar também era colunista da "Folha de S.Paulo".

Internado desde 11 de janeiro para uma cirurgia de extração de tumores no intestino, Scliar sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico no dia 16 de janeiro e foi encaminhado à unidade intensiva. No dia seguinte, sofreu uma cirurgia para retirada de coágulo decorrente do AVC, passando a ser mantido com um mínimo de sedação necessária. O escritor passava pela retirada gradual da sedação quando, no dia 9 de fevereiro, apresentou um quadro de infecção respiratória, voltando então a ser sedado e a respirar por aparelhos.

O velório será hoje, a partir das 14 horas, no salão Júlio de Castilhos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O sepultamento ocorrerá amanhã, em local e horário ainda indefinidos. A cerimônia será apenas para familiares e amigos.

Trajetória

"Não preciso de silêncio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais. Preciso só de um teclado." Em meio a dezenas de depoimentos de autores sobre as mais diferentes manias no momento de escrever, publicados desde o início do ano passado no blog do escritor Michel Laub, o do gaúcho Moacyr Scliar se destacou pelo pragmatismo: para o criador prolífico e naturalmente inspirado, o único impedimento para a escrita seria a falta da ferramenta com a qual levá-la a cabo.

Tanto era assim que, em quase 50 anos de carreira literária, ele publicou mais de 80 livros. O primeiro - "Histórias de um Médico em Formação" foi publicado em 1962, mesmo ano em que concluiu a faculdade de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O mais recente foi o romance "Eu Vos Abraço, Milhões", que saiu em setembro do ano passado. Entre um e outro escreveu romances e livros de crônicas, contos, literatura infantil e ensaios, numa média de mais de um livro por ano, com destaque para "O Ciclo das Águas", "A Estranha Nação de Rafael Mendes", "O Exército de um Homem Só" e "O Centauro no Jardim".

Tudo isso mantendo os critérios que o tornaram um dos mais reconhecidos autores brasileiros contemporâneos em solo nacional, com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras desde 2003 e três Jabutis (1988, 1993 e 2009) entre prêmios recebidos, e também no exterior, com obras publicadas em 20 países e honrarias como o Casa de Las Americas, em 1989.

Scliar não deixou de lado a carreira na medicina. Na área, destacou-se desde 1969 em cargos como chefe da equipe de Educação em Saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul e como diretor do Departamento de Saúde Pública. Entre o lançamento do livro de contos que Scliar preferia considerar como sua primeira obra profissional, "O Carnaval dos Animais", em 1969, e o primeiro romance, "A Guerra no Bonfim", em 1971, encontrou tempo para cursar pós-graduação em medicina comunitária em Israel. Ainda no início da década passada, em 2002, concluiu doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública, com a tese "Da Bíblia à Psicanálise: Saúde, Doença e Medicina na Cultura Judaica".

A tradição judaica o acompanhou em toda a carreira literária, assim como o imaginário fantástico. Nascido em 23 de março de 1937 no bairro do Bom Fim, que até hoje reúne a comunidade judaica de Porto Alegre, e alfabetizado pela mãe, Sara, que era professora primária, Scliar chegou a ter o romance "O Centauro no Jardim" incluído numa lista com os cem melhores livros relacionados à história dos judeus dos últimos dois séculos, elaborada pelo National Yiddish Book Center. Também se tornou um grande porta-voz do País sobre temas relativos ao judaísmo, mantendo laços de amizade com alguns dos maiores autores israelenses no mundo contemporâneo, como David Grossman, A.B. Yehoshua e Amos Oz.

A especialização em saúde pública, por sua vez, deu a Scliar a oportunidade de vivenciar temas como a doença, o sofrimento e a morte - características que podem ser percebidas tanto em sua ficção, em obras como "A Majestade do Xingu", quando na não ficção, caso em que "A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura" é um dos exemplos mais claros. Ele pôde também conhecer de perto a realidade brasileira, o que fez da vida de classe média, sempre em textos leves e bem-humorados, outro de seus assuntos centrais.

Casado desde 1965 com Judith Vivien Oliven e pai de Roberto, nascido em 1979, Scliar também dedicou atenção especial às obras infanto-juvenis. Costumava dizer que escrevendo para os jovens reencontrava o jovem leitor que havia sido. Boa parte de sua produção nessa área foi considerada "altamente recomendável" pela Fundação Biblioteca Nacional.

Além de produzir textos para vários jornais e revistas, o autor também teve trabalhos adaptados para o cinema. Caso do romance "Um Sonho no Caroço do Abacate", adaptado em 1998 por Luca Amberg sob o título Caminho dos Sonhos, em cujo elenco apareceram atores como Taís Araújo, Caio Blat e Mariana Ximenes. Em 2002, o romance "Sonhos Tropicais" virou filme, sob direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Ingra Liberato e Cecil Thiré entre os atores.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mario Vargas Llosa vence o Prêmio Nobel de Literatura




O escritor peruano Mario Vargas Llosa é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010, anunciou hoje a Academia Sueca em sua sede, em Estocolmo. Como prêmio, vai receber 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,5 milhão).

Em comunicado, o comitê informou que Llosa recebeu o prêmio "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual".

Nascido em 1936, o novelista e ensaista é tido como um dos maiores nomes da literatura em língua espanhola. Seu principal tema é a luta pela liberdade em seu país. Entre suas principais obras estão "A Casa Verde", "Lituma nos Andes" e "A Cidade e os Cachorros". Em 1981, Llosa publicou "A Guerra do Fim do Mundo", sobre a Guerra de Canudos, que dedicou ao escritor brasileiro Euclides da Cunha, autor de "Os Sertões".

Já entre seus prêmios mais importantes estão o Prêmio Cervantes (1994) e o Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras Espanha (1986).

Reconhecimento

Mario Vargas Llosa afirmou que o prêmio é um reconhecimento da literatura da América Latina e em língua espanhola, em uma entrevista à rádio colombiana RCN.

"Não pensava que sequer estava entre os candidatos", disse o escritor de 74 anos em Nova York, na primeira reação após receber a notícia do prêmio. "Acredito que é um reconhecimento à literatura latinoamericana e à literatura em língua espanhola, e isto sim deve alegrar a todos", acrescentou ele, que ministra aulas na Universidade de Princeton.

"Ele havia levantado às 5h para dar aulas. Recebeu a ligação informando às 6h45, enquanto trabalhava intensamente", contou Peter Englund, presidente do júri do Nobel de Literatura.

Com o resultado, o escritor sucede a romena naturalizada alemã Herta Mueller e o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedores das edições de 2009 e 2008, respectivamente.

Vargas Llosa irá à cerimônia de entrega do prêmio em 10 de dezembro, em Estocolmo. Ele fará o discurso em nome de todos os premiados, com exceção do Nobel da Paz, realizado em um ato paralelo, em Oslo.

Llosa, mais uma vez, confirma a tendência dos últimos anos da Academia de não premiar o favorito nas apostas. Antes do anúncio de hoje, o poeta sueco e escritor Tomas Transtromer era o favorito, vindo em seguida três outros poetas; Adam Zagajewski, da Polônia, Ko Un, da Coreia do Sul, e Adonis, da Síria.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Raimundo Carrero e Edney Silvestre levam prêmio SP de Literatura 2010


Notícia veiculada no sítio do Estadão (www.estadao.com.br), de 02/08/2010

Raimundo Carrero é o vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2010. O escritor levou o prêmio com a obra A Minha Alma é Irmã de Deus, da editora Record. Já na categoria estreante quem levou o troféu foi Edney Silvestre, com o livro Se Eu Fechar os Olhos Agora, também da Record. A cerimônia de entrega da premiação ocorreu na noite desta segunda, 2, no Museu da Língua Portuguesa.

Entre as obras que concorreram na categoria Melhor Livro do Ano estavam O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho, Leite Derramado, de Chico Buarque, O Albatroz Azul, de João Ubaldo Ribeiro, e Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, entre outros.

Na categoria Melhor Livro do Ano - Estreante, foram finalistas A Passagem Tensa dos Corpos, de Carlos de Britto e Melo, Sinuca Embaixo d'Água, de Carol Bensimon e Ciranda de Nós, de Maria Carolina Maia. Cada um dos ganhadores receberá R$ 200 mil como premiação.

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago conseguiu a proeza de ser um grande romancista moderno

19/06/2010-06h49 - Texto publicado na página da Folha de S.Paulo

LEYLA PERRONE-MOISÉS

ESPECIAL PARA A FOLHA DE SÃO PAULO


"Quando José Saramago chegar ao céu, Deus pai lhe fará cara feia, pois o escritor fartou-se de denegri-lo em seus romances. Mas Deus filho, que era também homem, advogará a seu favor, porque Saramago foi um humanista, quer em suas ideias, quer na prática de algumas das maiores faculdades humanas, a de imaginar e de narrar.

Desde seus primeiros romances, Saramago dedicou-se a "levantar do chão", por meio da palavra, os homens oprimidos e esquecidos por Deus pai ou pelos outros humanos mais favorecidos. E que palavras! Com ele, a língua portuguesa readquiriu, ao mesmo tempo, a majestade de um Vieira, o humor de um Eça de Queirós e a beleza poética do Pessoa prosador. Não por acaso, esse filho de analfabetos a alfabetizado tardio foi apelidado de "Imperador da língua portuguesa".

Qualquer que seja a posição dos leitores com relação às opiniões políticas do homem Saramago, ninguém pode acusá-lo de ter feito literatura partidária ou militante. O romancista defendeu suas ideias, não com pregação política ou lições de moral, mas por meio da melhor literatura de ficção, aquela que, nos prendendo com histórias envolventes e nos embalando numa linguagem musical, nos faz refletir sobre a história passada e a sociedade atual. Apesar da firmeza de suas ideias, em seus romances Saramago sempre tratou a história e a realidade com mão leve, num registro imaginário, por vezes fantástico, que levantando o leitor do chão, a este o devolvia mais lúcido.

A primeira coisa de que se devem lembrar os críticos de Saramago é que ele foi um narrador de parábolas. A parábola é uma narrativa alegórica, cujo sentido moral não é explícito, mas deve ser recriado pelo ouvinte ou leitor. Assim, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" demonstra o contrário do que pretendia o heterônimo pessoano: "Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo". E o "Ensaio sobre a Cegueira" ilustra o dito popular: "O pior cego é o que não quer ver". Sendo parábolas, é injusto que se cobrem dessas histórias qualquer verdade factual ou psicológica.

Saramago conseguiu a proeza de ser um grande romancista moderno, portanto difícil, e ter encontrado um grande número de leitores, principalmente jovens. Uma das explicações para sua popularidade é a de ter sido um bom contador de histórias. Sua dicção, como a de um Guimarães Rosa, é a da oralidade, que aprendeu com seu avô guardador de porcos e com os camponeses do Alentejo. Ouvir histórias sempre foi um dos maiores prazeres humanos, em qualquer cultura. E Saramago foi um mestre no manejo dos acontecimentos e dos diálogos, a ponto de prescindir de sinais de pontuação, tal era seu domínio do ritmo narrativo. Além disso, o fato de sua obra ter encontrado um grande público demonstra o quanto os leitores estavam carentes de histórias com sentido, e não apenas de entretenimento ou de auto-ajuda.

Ao longo do tempo, o estilo de Saramago evoluiu de um barroquismo tipicamente ibérico a uma simplicidade clássica. Que seus últimos romances não tenham sido tão bons como os primeiros, é algo que não se deve censurar num escritor. Quem escreveu o "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "História do Cerco de Lisboa", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes" já podia descansar em paz.

À primeira vista, as obras de Saramago parecem pessimistas, já que ele nos dá uma imagem sombria da sociedade. Mas, de fato, ele era um otimista, pois não se cansava de abrir os olhos dos leitores para uma possível mudança do estado atual do mundo. Quando escreveu romances históricos, não o fez para recriar o passado, mas para corrigi-lo imaginariamente. Na verdade, se o historiador não pode nem deve alterar o passado, o romancista tem a liberdade de reescrevê-lo, em função do presente e do futuro. E esta é a razão dos abundantes paralelismos e anacronismos nas obras "históricas" de Saramago, que não são meros jogos textuais, mas apelos à reflexão sobre o presente e o futuro. O mais sombrio de seus romances, o "Ensaio sobre a Cegueira", termina com uma alusão à esperança: "Esqueceste-te de falar da esperança de todos, Qual, A de recuperar a visão". Em sua evocação do passado ou em sua visão do presente, as obras de Saramago se abrem para um futuro que não seja mero destino ou fatalidade, mas que preserve os valores humanos, dentre os quais o da arte literária.

A visão de Saramago nos fará muita falta. Em "Manual de Pintura e Caligrafia", o narrador-personagem fala dos mortos: "Despeço-me dos mortos, mas não para os esquecer. Esquecê-los, creio, seria o primeiro sinal de morte minha. Além disso, após escrever tantas páginas, fez-se-me a convicção que devemos levantar do chão os nossos mortos, afastar dos seus rostos, agora só ossos e cavidades vazias, a terra solta, e recomeçar a aprender a fraternidade por aí". Saramago continua vivo em sua obra e na memória daqueles que tiveram a felicidade de o conhecer."

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago



Acabo de saber que morreu hoje, dia 18 de junho de 2010, o escritor português José Saramago.

Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o único autor em língua portuguesa a receber tal honraria, além de escritor de imenso talento e de estilo peculiaríssimo, unicamente seu, era portador de um ideário humanista que influenciou milhares de pessoa mundo afora.

O pensamento de Saramago, influenciado pelas concepções comunistas, ia muito além do marxismo vulgar, das explicações economicistas e classistas ou do ateísmo. O que diferenciava Saramago, sobretudo, era o alcance de sua inteligência para abarcar a essência do humano, com suas mazelas e belezas infinitas. E, apesar dos pesares, apesar, inclusive, de o próprio escritor querer se mostrar um pessimista incorrigível, sempre havia um quê de esperança ao final de seus escritos: contos, romances, peças de teatro, poesia.

Eu, particularmente, sinto-me um pouco órfão com a morte de Saramago. Aprendi a apreciá-lo, adaptando-me a seu estilo, digamos, diferente – um fluxo narrativo veloz, em que se confundem personagens, autor, diálogos, narrações, comentários, sem travessões e quase tudo em um único parágrafo –, desde que no meu aniversário em 1997 fui presenteado por meu primo Arnaldo com o livro “Todos os Nomes”. Não consegui mais deixar de ler todos os romances publicados doravante, até o último, “Caim”. Também fui atrás de livros anteriores: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Jangada de Pedra”, “Memorial do Convento” e meus preferidos: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Levantado do Chão”.

Em 2008, quando Saramago esteve no Brasil para lançar “A Viagem do Elefante”, fiz uma verdadeira via-crúcis em sua perseguição. Assisti à cerimônia de lançamento no Sesc Pinheiros, à Sabatina da Folha de São Paulo, ao lançamento da exposição “A Consistência dos Sonhos” no Instituto Tomie Ohtake (a foto acima foi tirada lá, quando o escritor dava uma entrevista para a televisão). Confesso que fiquei frustrado por não ter conseguido uma dedicatória em meu livro. No entanto, fiquei sinceramente emocionado pelas oportunidades de estar frente a frente desse escritor que me é tão caro.

Sei que não terei mais a felicidade de ler um novo livro de Saramago. Porém, posso reler os antigos e ler os que ainda não li. A propósito, começo hoje a ler “História do Cerco de Lisboa”, que ganhei de presente de minha amiga Talita – engraçado, todos os meus amigos sabem que sou um contumaz “saramagueano”.

Não sei por que, de cara associei o Senhor José, personagem de “Todos os Nomes”, o livro que me fez descobrir Saramago, à figura do seu autor. E assim me despeço:

Senhor José, onde quer que esteja – me desculpe se não consigo compartilhar de seu ateísmo –, muito obrigado pela sabedoria, pelo prazer da leitura, especialmente, pelo prazer com a nossa língua portuguesa, que você foi capaz de levar a milhares, talvez milhões de leitores mundo afora. Eu, humildemente, coloco-me entre eles. Saiba que deixa, além do incomensurável legado da literatura e do pensamento humanista, algo que só nós, os que falamos e pensamos em língua portuguesa, podemos entender: saudade.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Ferreira Gullar vence o Prêmio Camões de 2010


Ferreira Gullar, considerado o maior poeta brasileiro vivo, venceu o Prêmio Camões de 2010.

Gullar é o nono brasileiro a ganhar o Camões, o mais prestigioso prêmio de literatura em língua portuguesa. Além dele, João Cabral de Mello Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Antonio Cândido, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e João Ubaldo Ribeiro receberam a honraria.

O Brasil igualou Portugal em número de vencedores do Prêmio Camões: nove. Dentre os portugueses vencedores estão Antônio Lobo Antunes e José Saramago.