Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Figuras

Roberto Damatta



Vivemos de figuras de todo tipo, como a de inocentes e de criminosos. De poetas e políticos - uns mentem falando a verdade; os outros são viciados em tratar da verdade mentindo.

A palavra "figura" agasalha muitos sentidos. O mapa do Brasil é uma figura na forma de presunto, como dizia Lima Barreto. Todo mundo sabe quem o come, mas "figura" que não sabe. Eis um outro sentido para essa imensa palavra: o fingir ou esquecer.

Todo ser imaginário é uma figura que é carta de baralho e configuração geométrica. A pirâmide serve como uma boa representação de um Brasil onde poucos governam ganhando muito e onde muitos são governados recebendo pouco.

"Figura" também significa aspecto, emblema, alegoria. Até anteontem, a figura de uma pessoa negra etiquetava um escravo; hoje, uma consciência maior da nossa alergia à igualdade faz o uniforme branco das babás virar um problema anunciado em pelo menos duas colunas importantes: a do Ancelmo Gois e a da Miriam Leitão.

E, no entanto, o branco é uma representação do limpo e do transparente. Símbolo da paz, não deixa de ser curioso como o branco se relaciona com os fantasmas envoltos em névoa. Esse nevoeiro de um Brasil escravocrata que escondemos, no qual o branco figurava como uma personificação da propriedade de pessoas.

Uniformizar, como disse Max Weber, faz parte do mundo moderno onde médicos, garçons, policiais, engenheiros, cientistas e operários estão uniformizados. A questão é o uso obrigatório e simbólico da roupa para distinguir as babás nesses clubes de elite. Ser de elite dispensa para cima; já o uso obrigatório do uniforme distingue para baixo. Uma presumida superioridade dada pela riqueza, pelo poder ou pela celebrização extingue a culpa, do mesmo modo que o emprego doméstico deve lembrar - pela roupa usada como cicatriz ou estigma - a origem escravocrata do serviço que promove a intimidade, mas (e aí está o ponto) não pode conduzir à igualdade. Ora, uma intimidade (o dar a mão) sem igualdade (o não tomar o braço) tem sido o princípio estruturante de toda a nossa vida social.

Uma das babás diz ao jornal (O Globo) que elas não têm nome. São "babás": o papel social de anjos da guarda dos filhinhos amados de suas bem-postas patroas promove o sumiço de suas cidadanias. Sempre foi assim. Façamos um teste - responda rápido: qual é o nome completo de sua empregada doméstica?

Entre a escravidão na casa e o pseudomoderno emprego doméstico quase não há hiato. A continuidade foi feita abafando a igualdade, mas mantendo a intimidade que humaniza a todos, não liquidando, porém, as subordinações. No fundo, os problemas não são somente das babás, mas das patroas receosas de serem confundidas com suas "criadas", na medida em esses serviços se profissionalizam e trazem à tona esses dilemas.

Há aqui um sintoma da silenciosa, mas permanente revolução igualitária que se realiza hoje no Brasil. Ela surge na indignação com administradores públicos corruptos e ineficientes; com o populismo calhorda que aristocratiza roubando, e é profundamente anti-igualitário porque deseja a exceção e o retorno do poder como instrumento de aristocratização; e passa por essas barbaridades de assassinar em lugares públicos como ruas e restaurantes porque o "outro" não sabe com quem está falando. Aí temos crimes cometidos em nome de uma desavença pessoal interpretada como falta de respeito, porque, se desconhecido não se comportar como um inferior, ele vira um inimigo.

Toda reação contra a regra da lei para todos revela esse nosso temor de uma impessoalidade que conduz ao igualitarismo contrário à boa e velha hierarquia que nos indicava com quem falávamos. É terrível ver sumir o mundo de exclusividades e testemunhar a raia miúda frequentando locais e usando roupas privativas dos grã-finos.

O surto de uniformizar para distinguir para baixo faz parte dessa reação à igualdade que chega para calibrar a liberdade excessiva dos que têm muito. Como distinguir para baixo se todo mundo está ficando muito parecido? Como saber com quem se está falando se não se sabe mais quem é a mãe ou a babá da criança?

Eu seria favorável ao uso compulsório do uniforme branco nos clubes se os bandidos também fossem obrigados a usar as máscaras típicas de suas figuras. Mas aí o (des)mascarar seria equivalente à revolução que tanto queremos e - eis a questão - não queremos. Senão, não seríamos campeões mundiais de empregadas domésticas.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 23/01/2013.

KKK!

Antonio Prata


Ontem assisti ao documentário "O Riso dos Outros", de Pedro Arantes, para o qual dei um depoimento. Se o menciono aqui não é para puxar brasa para a minha sardinha (até porque a televisão não é brasa mais propícia à minha desengonçada sardinha), mas pela qualidade do filme e por seu tema, tão pertinente: as intrincadas relações entre humor, liberdade e preconceito.

O documentário mostra desde defensores de minorias até comediantes abertamente racistas. Após ouvir alguns do segundo time, me convenci de que o grande problema do "politicamente correto" não é a suposta ameaça à liberdade de expressão, mas o fato de que aqueles que até ontem eram tidos apenas como grosseiros ou ignorantes agora ostentarem o "label cool" de "politicamente incorretos".

O humor é um brinquedo ambíguo. Quando rimos de nossas fraquezas, admitimos defeitos que, sem essa bem-vinda anestesia, seríamos incapazes de encarar. Desarmando-nos, o riso nos irmana com o próximo --afinal, somos todos companheiros nesta barca furada.

Rir do mais fraco é o contrário. Nesse caso, o riso serve para camuflar nossas fraquezas, apontando-as (ou inventando-as) nos outros. É como dizer: sou tão inseguro da minha masculinidade que ataco as mulheres e os gays. Temo tanto meus defeitos que crio monstros feitos só deles: os negros, os nordestinos, os árabes, os judeus etc.

Não é que haja assuntos proibidos para o humor: pode-se fazer piada com religião, cor, gênero. A questão, como diz Hugo Possolo no filme, é de que lado da piada você se coloca.

Woody Allen, num stand up do início da carreira, dizia que a vida de seus avós na Polônia era tão horrorosa que, quando Hitler invadiu o

país, eles pensaram: "Bom, quem sabe agora as coisas não vão melhorar um pouquinho?". Woody Allen estava rindo do sofrimento? Sim, mas não dos sofredores. A tirada aponta para os opressores, os antissemitas.

Exemplo análogo é um esquete do Porta dos Fundos sobre a primeira reunião da Ku Klux Klan. O organizador (Fábio Porchat) descobre, logo no início, que todos os presentes embaixo das batas e dos chapéus são negros. Reclama com seu assistente (Gregório Duvivier), que afirma ter chamado o pessoal que trabalha em sua casa. Apavorado, Porchat diz que a reunião na verdade é para formar uma banda de blues e puxa um coro de "Oh, Happy Day", sem nenhum sucesso.

O esquete (muito mais engraçado do que essa esquemática descrição) tira sarro dos negros? Não, ri dos organizadores da KKK, a quem pinta como dois playboys sem noção, ri do preconceito racial, das desigualdades sociais que ele cria e de seus estereótipos.

Às vezes, vendo os arautos da ignorância se arvorando a paladinos da liberdade, fico pessimista. Mas ao assistir aos vídeos de novos humoristas como Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Marcelo Adnet e ao ouvir, no documentário, os depoimentos de Laerte, Hugo Possolo, Marianna Armellini, Arnaldo Branco, Fernando Caruso, André Dahmer, Lola Aronovich e Jean Wyllys, me volta a esperança: ao que parece, tem muita gente talentosa que acha mais legal esculhambar o racista embaixo do lençol do que o enforcado balançando na árvore.


antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata

Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/12/2012.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A ocupação das telas de cinema

André Sturm


No dia 15 de novembro, estreou a última parte da saga Crepúsculo no país. O filme entrou em 1.213 salas ao mesmo tempo.

Afinal, tantas pessoas querem ver o filme? Essa quantidade de salas é algo realmente necessário?

O Brasil tem cerca de 2.200 salas. Ou seja, um único filme ocupa cerca de 60% dos cinemas do país!

Se considerarmos que o novo filme 007 está em outras 400, temos mais de 1.600 salas (75% do total) com apenas dois filmes em cartaz.

Quem quer ir ao cinema é quase empurrado para ver um desses títulos. Não é o caso de pedir a ação dos órgãos que deveriam garantir a concorrência, que deveriam evitar o monopólio, a concentração? Quando a Nestlé quis comprar a Garoto e ficar com 70% do mercado de chocolate, houve um enorme debate, que movimentou órgãos do governo.

Dois filmes podem ter 75% das salas? Nesse caso, ainda temos a questão da diversidade -afinal, mesmo sendo um negócio, o cinema envolve diversos aspectos culturais.

É assistindo a filmes que muitos dos hábitos e costumes são formados. Foi através do cinema que os Estados Unidos, a partir dos anos 1950, impuseram os seus hábitos ao mundo, por exemplo, e isso obviamente tem implicações econômicas. Com os filmes, veio o "american way". Todo mundo passou a usar jeans, comer hambúrguer e escutar rock.

Não se trata de xenofobia ou discurso antiamericano. Mas o capitalismo prevê mecanismos para evitar excessos. No mercado de cinema, não se vê isso.

Para exemplificar: em 2005, Harry Potter 4 fez 4,3 milhões de ingressos com 550 cópias. Em 2007, o quinto filme fez 4,2 milhões com 787 cópias. Em 2010, o sexto fez 4,3 milhões com 861 salas. Ou seja, não houve aumento de público e o número de telas aumentou 60%.

Não parece evidente que o aumento de ocupação de salas serve para diminuir a concorrência? Quanto mais cópias, maior o investimento em publicidade. E, portanto, maior o impacto na decisão do consumidor.

Fica cada dia mais difícil competir. O alto gasto de recursos em publicidade para impedir a concorrência é outra prática irregular. A digitalização tornará isso ainda mais cruel. Não haverá o custo de cópia para inibir a ampliação do número de telas. Poderemos ter, no limite, um filme lançado em todas as salas!

Urge que os órgãos tomem uma atitude. Eu gosto de pizza, eu gosto de hambúrguer. Mas também de comida francesa e tailandesa.

Eu quero poder ter a chance de chegar num cinema de oito salas e ter pelo menos oito filmes em cartaz para escolher. Isso não é do interesse apenas dos produtores nacionais que não conseguem exibir seus filmes. É do interesse do consumidor que não tem opções.

O país não pode permitir a exploração de seu mercado de maneira predatória, deixando corações e mentes de todos submetidos a um produto pasteurizado e global.


ANDRÉ STURM, 46, é cineasta e diretor-executivo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS). Foi diretor do Cine Belas Artes

Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/12/2012.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Tributo justo a quem vence todas com humildade

Manoel Carlos






Giane é uma explosão. Antes, muito antes de ser um homem de talento, bonito e de sorte, é um homem de boa vontade, de garra, de quem acredita que tudo que é benfeito, certamente foi realizado com esforço, mais do que com a sorte. Aliás, o Giane não é muito de falar em sorte, nem em destino, mas de trabalho, trabalho duro, muitas vezes realizado em circunstâncias adversas, como foi o seu começo na TV, do qual eu participei ativamente. Apesar de ser escolhido, por merecimento, entre oito ou dez atores de magnitude semelhante, ele teve de enfrentar o descrédito da mídia e a ironia de muitos companheiros de ofício. E eu, que fui ator ao lado dos maiores nomes do teatro brasileiro, que conheço de perto as grandes, as médias e as pequenas atrizes, posso garantir a vocês que elas - as atrizes - são as mulheres mais generosas e ao mesmo tempo mais cruéis da espécie.

Meu Deus! Vocês nem imaginam quanto uma atriz pode ser cruel, se assim o desejar. E o Giane enfrentou algumas já na sua estreia, jogado aos leões, ou melhor, às leoas, que não o pouparam. Não se perdoa com facilidade alguém como ele. “Como pode ser tão talentoso, tão esforçado, tão generoso e ainda ser bonito?” Era muita coisa para ser engolida assim, a seco.

Mas foi uma vitória. Uma vitória minha, do Ricardo Waddington e dele, do Giane, principalmente.

Nós o escolhemos como o favorito entre os jovens que fizeram o teste. Eu e o Ricardo não tínhamos dúvida de que ele era o melhor entre todos. Fechamos com ele. Mas eu, mesmo assim, quis fazer um teste - aproveitando uma reunião que a minha filha Júlia estava fazendo, em casa, com algumas amigas da mesma idade, jovens entre 17 e 20 anos. E eu disse que ia mostrar alguns testes que havíamos feito e queria que elas votassem naquele que achassem o melhor entre eles.

Coloquei o DVD com os testes, que foi correndo, provocando pequenos comentários, em voz baixa, até que apareceu o Giane. E como se fosse uma reação combinada, as jovens que ali se encontravam gritaram ao mesmo tempo, num coro consagrador. Nem era preciso votar. Era uma unanimidade.

E a escolha das jovens do mais bonito foi ao encontro de quem era também o que mais apresentava condições de se distinguir. E tanto isso é verdade, que ele foi o único que fez uma carreira brilhante, que trilha até hoje, agora já reconhecido pela mídia e respeitado pelas atrizes, mesmo as mais cruéis.

Me envaidece ter participado dessa história com o Ricardo Waddington. Uma história que eu vou lembrar para sempre.

Este livro do Guilherme Fiúza é um tributo justo, um testemunho humano, rico e precioso, que se faz a um jovem que vem vencendo todas com humildade e sabedoria. Palmas para os dois: Giane e Fiúza.


MANOEL CARLOS é autor de telenovelas

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 13/12/2012.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Razão e relinchos

Michel Laub



Existe um livro de Schopenhauer chamado "Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão" (ed. Topbooks). Um dos riscos de escrever uma coluna de jornal hoje, ou de opinar em qualquer instância pública, é o oposto: ser ignorado, quando não perseguido e açoitado num pelourinho de grunhidos, relinchos e cacarejos, a despeito da mais cuidadosa argumentação.

Convencer alguém a mudar de ideia não é algo comum em nosso tempo. Basta uma semana nas redes sociais para perceber: militantes pró e contra aborto, descriminação da maconha, eutanásia, cotas, cabras e sobrenomes Guarani-Kaiowá, a maioria está ali para confirmar certezas prévias ou se irritar com quem diz o contrário.

Uma radicalização que também nasce do meio: para que os palpites sejam ouvidos entre tantas vozes, a tendência é que o adjetivo prevaleça sobre o termo exato, a ênfase sobre a ponderação, as regras generalizantes sobre as nuances que tiram a graça e o colorido das frases e slogans.

Num cenário assim, não é difícil adotar um tom nostálgico ou apocalíptico. Talvez se possa lamentar o fim de uma suposta era de ouro dos debates elevados.

Prefiro seguir achando que a humanidade não mudou tanto: apenas passamos a ouvir, graças a uma tecnologia muito mais benéfica que perniciosa, que criou possibilidades infinitas de compartilhamento de informação, as conversas antes restritas a botecos. É um choque descobrir que amigos são tão ignorantes, levianos ou idiotas, claro, mas até isso tem seu lado positivo.

De certa forma, estamos diante de um problema das democracias maduras, que já superaram -ou deviam ter superado- questões graves referentes à liberdade de discurso. Ou seja, não estou falando da lei, que proíbe censura, calúnia, injúria e difamação. Nem da ética, que repele a desonestidade intelectual sem que seu autor precise ir para a cadeia. Estou falando é de etiqueta, a "pequena ética" que em sua face menos elitista propõe tolerar os modos alheios -um caminho para, quem sabe, prestar atenção ao que eles representam.

Isso porque linguagem e tom -que são maneiras de segurar os talheres num debate- nem sempre arruínam as ideias por terem aparência tosca. Dá um pouco de cansaço, por exemplo, quando bikers defendem suas propostas para o trânsito com tamanha agressividade. Ou quando a pecha de "fascista", misturada à teoria política da salmonela, aparece na discussão sobre bisnagas de plástico proibidas em feiras e lanchonetes. Ainda assim, tudo a favor de ciclovias e meios alternativos de transporte, e abaixo aqueles saquinhos tristes de ketchup e mostarda.

Num ensaio de 2005, um nome insuspeito quando o tema é a consequência das palavras -Salman Rushdie, que passou anos escondido por causa de um livro considerado blasfemo pelo Irã- escreveu: "Na Universidade de Cambridge, me ensinaram (...) que não se deve ser grosseiro com a pessoa com quem se discute, mas se pode ser extremamente grosseiro em relação a tudo que ela pensa". Parece uma citação descabida num texto sobre etiqueta. Na verdade, é a lembrança de uma regra ideal em debates: deveria importar o que é dito, e não quem diz. É o que impede um interlocutor de ser desqualificado por gênero, crença, classe ou etnia.

Forçando um pouco a boa-fé, por que não abstrair também o partido em que o interlocutor vota, a empresa jornalística onde trabalha, os amigos que tem? Ou suas deficiências retóricas, sua ingenuidade, sua queda pelo vitimismo, pelo sentimentalismo, pelo insulto? A distinção total entre texto e autor é utópica, e o conteúdo de uma ideia pode ser indistinguível de sua forma, e às vezes tudo se resume mesmo a interesse ou tolice, mas o esforço para enxergar um pouco além disso é sempre virtuoso. Pensar com liberdade, o melhor atalho para identificar o lado certo numa disputa, passa por ouvir e aprender com vozes dissonantes. Mesmo que o timbre delas seja mais frequente em zoológicos, penitenciárias e hospícios.



Publicado na Folha de S.Paulo, em 07/12/2012.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Formalismo


Vladimir Safatle





A morte de Décio Pignatari nos permite, mais uma vez, lançar luzes sobre o movimento concretista e os desdobramentos da experiência literária nacional. Pois o concretismo parece ter se imposto como o último momento da literatura brasileira a abrir espaço a uma produção capaz de refletir, com grande capacidade especulativa, suas decisões formais e seu lugar histórico.

Servindo de referência não apenas para a poesia, mas também para as artes plásticas e a música, o movimento concretista merece que nos debrucemos mais uma vez sobre ele.

Sua procura em mostrar, como dizia Maiakóvski, de que "sem forma revolucionária não há arte revolucionária", talvez seja uma das expressões possíveis para uma espécie de "programa comum" tão presente nos anos 1950 e 1960 no Brasil e que gira em torno da necessidade de superação do atraso.

O "formalismo" nunca foi alguma forma de pregação autista da autonomia da obra de arte. Jacques Rancière compreendeu isso muito bem quando lembrou que, em toda discussão sobre a autonomia da obra de arte, sempre ressoou a crença em uma comunidade por vir. Crença de que a arte, quando fala de si mesma, pode fornecer os delineamentos de um vínculo social renovado.

Pois esse aparente retorno da linguagem sobre si mesma produzido pela arte é sua maneira de expressar a consciência do esgotamento da força expressiva de nossas convenções, consciência do desabamento do mundo que, até aquele momento, nossa linguagem suportou.

Ninguém mostrou isso de maneira mais bem-acabada do que Mallarmé, não por acaso uma das referências maiores dos concretistas, juntamente com Ezra Pound, Cummings, Maiakóvski e outros.

O mesmo Mallarmé que procurava a força de anulação própria a um poema que não teria mais medo de dizer: "Nada terá tido lugar a não ser o lugar". Ou seja, só flertando com o grau zero que podemos começar a criar.

Que tais preocupações com a forma estética aparecessem no Brasil dos anos 1950, isso deve ser creditado à consciência de que apenas esse retorno à crença na potência disruptiva da pura forma poderia fortalecer as direções de nossa experiência modernista. No fundo, o concretismo sentia a urgência de mudar as estratégias de nossa produção artística, talvez muito voltadas à procura da afirmação de nossa nacionalidade.

Todas essas discussões são, ainda, profundamente relevantes. Como se elas tivessem ficado no ar à espera de um desdobramento, de alguma forma de aprimoramento. Como se algo de nosso país tivesse, por alguma razão bizarra, parado no momento de Décio Pignatari.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/12/2012.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Leitura nos olhos dos outros

Rosely Sayão


Recentemente foi comemorado o Dia Nacional do Livro. A data lembrou a importância da leitura na vida das crianças e de todos nós.

Esse é um bom motivo para refletirmos sobre a contribuição que o mundo adulto dá para que os mais novos tenham a chance de desenvolver o gosto pela leitura.

Primeiramente, é bom reconhecer que temos uma posição bastante moralista a esse respeito. Famílias e escolas repetem à exaustão que ler é uma coisa boa.

Desde os primeiros anos escolares até o último ano do ensino básico, a lista de livros obrigatórios é enorme.

Mas será que ler é mesmo bom? Se é, por que temos de repetir tanto essa recomendação e nem assim conseguimos resultados?

Talvez porque obrigação não combine com prazer e ler deveria ser uma questão de prazer. Muita gente se preocupa em desenvolver o hábito da leitura. Prova disso é que nossas crianças ficam com a agenda abarrotada de coisas para ler.

Entretanto, hábito é coisa bem diferente de vontade. Em relação à leitura, o que podemos fazer é plantar nos mais novos a vontade de ler, mostrando as emoções que essa experiência proporciona.

A segunda questão que temos é a seguinte: se ler é tão bom assim, por que é que nós, os adultos, lemos tão pouco? Pesquisas mostram que o índice de leitura espontânea no Brasil é de pouco mais de um livro por ano! Muito pouco, quase nada, na verdade.

Isso significa que, depois que o jovem sai da escola, ele simplesmente deixa de ler.

O que podemos fazer para que os jovens encontrem seu próprio caminho no mundo dos livros? Para que desenvolvam um gosto verdadeiro pela leitura?

Os pais podem, por exemplo, ler e contar histórias para os filhos pequenos. Muitas famílias já cultivam o momento da história, lendo para os filhos de até seis anos antes de a criança se recolher. A questão é que eles não sabem como seguir com esse ritual depois que a criança cresce.

A partir dos sete, oito anos, muitas famílias se rendem aos outros interesses que a criança passa a ter: programas de televisão, internet, videogames, jogos de computador etc.

Entretanto, ouvir e contar histórias para os filhos é um hábito que poderia seguir até o fim da infância como um grande incentivador não apenas do gosto pela leitura, mas também como um elemento intensificador das relações familiares.

Depois que a criança ganha fluidez, é hora de pedir para que ela também leia para os pais. Mostrar interesse pelos livros que ela escolhe, ouvir com atenção as histórias que a criança conta sobre sua própria vida e ler ao seu lado são excelentes maneiras de estimular a atividade leitora dos mais novos.

As bibliotecas também poderiam funcionar como locais de incentivo do gosto pela literatura. Para isso, precisariam ser fisicamente mais atraentes, com livros e atividades interessantes. As famílias poderiam incluir a ida à biblioteca como um programa familiar, não é verdade?

Ler sempre --mesmo que por pouco tempo--, comentar sobre os livros que estão lendo e incluir alguns exemplares na bagagem das férias são atitudes que os pais podem adotar para mostrar aos filhos, na prática, que ler é bom de verdade.

E as escolas? Essas têm um enorme potencial para desenvolver com seus alunos o interesse pela leitura. A maioria tem optado pelos caminhos mais fáceis e menos produtivos: responsabilizar as famílias por isso e obrigar os alunos a ler. Poucas são as escolas particulares que têm uma biblioteca atraente.

Aliás, aí está uma boa questão para os pais que procuram escolas para os filhos: visitar a biblioteca escolar e saber como ela é usada por alunos e professores.

E, por falar em professor, quantos deles demonstram aos alunos que têm paixão pela literatura?

Se ler é mesmo bom, vamos provar isso aos mais novos.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 06/11/2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Gregos e troianos

Fernanda Torres
 
A classe artística é dividida. O cinema, apesar das divergências, sempre soube se posicionar em bloco. O caráter industrial das artes e ciências cinematográficas obriga o mais experimental dos cineastas a lidar com a tecnologia e o mercado. Além disso, o poderio dos blockbusters iguala o mais comercial dos filmes brasileiros ao mais autoral deles. Os ianques nivelam todo mundo por baixo.
Já no teatro, as versões brasileiras dos musicais da Broadway enfrentam as mesmas vicissitudes do empreendedor médio: alto custo da mídia, da produção, baixo valor do ingresso e dependência da isenção fiscal. Mas a falta de um inimigo comum acentua a cizânia.
Ouvi de um colega que os teatros de shopping deveriam ser boicotados por serem os responsáveis pelo vício do público em comédias ligeiras. Ficaríamos melhor sem eles? Pensei. Resolveríamos o descompasso com o espectador? Ou reduziríamos ainda mais o interesse vacilante da sociedade pelo que ocorre em cena?
Na minha adolescência, o teatro tradicional, feito por produtores como meu pai, era taxado de teatrão. Os grupos de pesquisa demonstravam insatisfação por ter que dividir os parcos recursos com a vertente considerada antiquada. O teatrão acusava as cooperativas de falta de consistência.
O Norte e Nordeste se queixam do monopólio do sul, a periferia reclama da capitalização dos grandes centros, os negros cobram uma reparação e os anônimos veem nos ditos famosos, muitas vezes cunhados de globais, a razão de ser de seu anonimato.
Como criar uma política pública justa diante de tamanha Babel?
Perguntei a Danilo Miranda, diretor do Sesc São Paulo, qual a sua opinião sobre o futuro da Lei Rouanet. Miranda acredita que ela será modificada, e precisa ser, segundo ele, para separar de maneira mais clara o que é marketing do que é investimento em cultura em troca de isenção fiscal das empresas.
A observação procede. Uma atenção maior do ministério para a linha tênue que separa a publicidade do patrocínio fortaleceria os fundamentos da Lei Rouanet e beneficiaria a todos democraticamente.
O Sesc São Paulo sempre teve uma visão ampla de educação, cultura e lazer. Focado na qualidade do que apoia e na população que pretende atingir, o Sesc oferece desde aulas de macramê, até um centro de pesquisa teatral como o CPT, de Antunes Filho.
Quando prefeita, Marta Suplicy se baseou no modelo do Sesc para construir uma rede de centros educacionais unificados, os CEUs, nos bairros carentes da capital.
Projetados para servirem apenas à comunidade, o circuito da periferia paulistana acabou entrando para o calendário das companhias nacionais de teatro.
Os prefeitos que sucederam Marta tiveram a honradez de dar continuidade ao projeto, ampliando sua política de ocupação. Hoje, os CEUs fomentam não apenas a cultura do seu entorno, como também o teatro que se produz no restante do país.
Minha mãe percorreu os CEUs com o espetáculo "Viver Sem Tempos Mortos", baseado na vida de Simone de Beauvoir. Poucas vezes a vi tão impressionada.
Foram oferecidas oficinas sobre o pós-Guerra e o existencialismo nos dias que precederam as apresentações lotadas, repletas de pessoas que nunca haviam pisado em um teatro. Sem demagogia, as educadoras elaboraram um trabalho exemplar de formação de plateia, tão fundamental quanto a do artista, mas raras vezes compreendido.
Quando "Viver Sem Tempos Mortos" submeteu seu projeto ao Ministério da Cultura, parte do órgão se mostrou avesso à sua aprovação. O assunto seria elitista demais para uma política de inclusão e um monólogo com uma atriz consagrada prescindiria do apoio da lei. O então ministro, Juca Ferreira, deu o parecer favorável.
A ideia de que a periferia deve consumir periferia e a elite, elite, subestima obra e plateia. O "Viver..." é a prova de que a ligação de Simone e Sartre não deixa de ser folhetim, assim como o Criolo prova que o hip-hop pode soar a Sinatra.
Marta é uma boa notícia para a cultura, um nome forte dentro e fora do partido.
Espero que a ministra leve sua experiência dos CEUs adiante e que conduza o ministério de forma a diminuir o arrivismo entre gregos e troianos.
 
Publicado na Folha de S.Paulo, em 26/10/2012.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Fim em si

Ruy Castro





Outro dia, mandaram-me um vídeo de um cantor japonês. Comecei a assistir. Cantor, canção e vídeo eram anódinos. O japonês estava de perfil. De repente, com um corte, a câmera mostrou uma cantora japonesa, também de perfil e também anódina. Finalmente, a imagem revelou: os dois eram um só, metade homem, metade mulher, divididos pela vertical, e com as vozes correspondentes. Não faz muito, esses exotismos eram coisa do "Acredite se Quiser", de Ripley, que saía nos jornais.

Todo dia recebo vídeos com imagens de desertos mexicanos, estepes russas, trigais espanhóis, geleiras polares e praias brasileiras. São de tirar o fôlego. Sem falar dos edifícios, viadutos e ilhas artificiais de Dubai. No passado, essas imagens saltavam das páginas da "Manchete" para a vida real e nos faziam babar.

E os vídeos sobre animais? Não param de entrar. São galinhas chocando cachorros, gatas lambendo esquilos desamparados e cadelas amamentando porquinhos órfãos. Em outros, veem-se golfinhos, pinguins e babuínos mais expressivos que certos atores de novela. Tudo isso, além de filmes sobre a vida sexual dos pernilongos, é material que, até há pouco, só se via em revistas como "National Geographic Magazine" ou no canal Discovery.

E, naturalmente, não falta quem mande fotos de estrelas do cinema que cometeram o erro de envelhecer e embagulhar. Ou de gente famosa em poses indiscretas, como a alemã Angela Merkel tirando meleca, Obama, com os sapatos furados, ou Kate Middleton, de topless. Enfim, o tipo de assunto que costumava ser privilégio das revistas de escândalos.

Em 1885, o poeta Mallarmé dizia que tudo no mundo existia "para acabar em um livro". Hoje, pode-se dizer que o mundo existe para acabar na internet. Com a qual ficamos dispensados até de sair à rua para fazer parte dele.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 24/09/2012.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Pior para o mundo

Ruy Castro





Nas muitas entrevistas a que fui solicitado a dar sobre Nelson Rodrigues nas últimas semanas, algumas perguntas, de tão recorrentes, me fizeram pensar melhor. Uma delas, sobre se Nel-son seria universalmente reconhecido se tivesse escrito em inglês ou espanhol. A resposta, óbvia, é sim. Minha dúvida é se, escrevendo nessas línguas, ele seria o mesmo Nelson Rodrigues.

Se escrevesse nessas línguas, Nelson não seria brasileiro, mas americano, argentino, chileno ou guatemalteco, com outra formação, família, ambientes, talvez até outra história. Esse Nelson teria a mesma paixão e compaixão por seu universo de adúlteros, tarados, cínicos, virgens, prostitutas, grã-finos, cabeças de bagre e santos de vitral? E a cultura desses povos lhe permitiria a promiscuidade de alternar teatro, jornal, cinema, televisão e estádios de futebol?

Descartada a hipótese de um Nelson Rodericks ou Rodríguez, resta a alternativa: então, por que não o traduzem? Isso já foi tentado diversas vezes, com resultados duvidosos. Não por ser difícil verter "Eu não disse? Batata!", "Nervoso, os colarinhos!" ou "Não dá bola, não dá pelota!" para outras línguas -na verdade, não é-, mas por Nelson ser tão escandalosamente brasileiro.

Seus personagens é que são intraduzíveis. Tuninho, o marido de "A Falecida", talvez pudesse ter sido criado por Fellini, e Dr. Werneck, o pai de "Bonitinha, mas Ordinária", por Buñuel -mas não teriam sido levados às últimas consequências, como o foram por Nelson. E quem mais teria concebido os seres que povoam "Álbum de Família", "Dorotéia", "Senhora dos Afogados", "Anjo Negro"?

Se existe uma tragédia universal, estabelecida por Shakespeare, Ibsen, O'Neill, Nelson situou nela o homem brasileiro. E, se o mundo não entende português para se maravilhar com ele, pior para o mundo.

 
Publicado na Folha de S.Paulo, em 25/08/2012.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Vovó cortesã

Ruy Castro



Parece uma queda travada pelos dois braços de uma só pessoa. De um lado da mesa, a Constituição, que garante a liberdade de expressão, de imprensa e de acesso à informação. Do outro, o Código Civil, que garante ao cidadão o direito à privacidade e o protege de agressões à sua honra e intimidade. Dito assim, parece perfeito ─ mas os copos e garrafas afastados para os lados, abrindo espaço para a luta, não param em cima da mesa.

A Constituição provê que os historiadores e biógrafos se voltem para a história do país e reconstituam seu passado ou presente em narrativas urdidas ao redor de protagonistas e coadjuvantes. Já o Código Civil, em seu artigo 20, faz com que não apenas o protagonista tenha amparo na lei para se insurgir contra um livro e exigir sua retirada do mercado, como estende essa possibilidade a coadjuvantes de quarta grandeza ou a seus herdeiros.

Significa que um livro sobre D. Pedro 1º pode ser embargado por algum contraparente da família real que discorde de um possível tratamento menos nobre do imperador. Ou que uma tetra-tetra-tetraneta de qualquer amante secundária de D. Pedro não goste de ver sua remota avó sendo chamada de cortesã ─ mesmo que, na época, isso fosse de domínio público ─, e parta para tentar proibir o livro.

Quando se comenta com estrangeiros sobre essa permanente ameaça às biografias no Brasil, a reação é: “Sério? Que ridículo!”. E somos obrigados a ouvir. Nos EUA e na Europa, se alguém se sente ofendido por uma biografia, processa o autor se quiser, mas o livro segue em frente, à espera de outro que o desminta. A liberdade de expressão é soberana.

É a que se propõe o Associação Nacional dos Editores de Livros: arguir no Supremo Tribunal Federal a inconstitucionalidade do artigo 20 do Código Civil. Assim que terminar o mensalão.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 17/08/2012.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

"piauí"

Fernanda Torres

Gosto muito de ler a revista "piauí". É mesmo um milagre que alguém tenha tido a pachorra de criá-la, e de maneira tão competente.
No número 70, na edição do mês de junho, o posfácio de Mario Sergio Conti para a reedição de seu livro, "Notícias do Planalto", explica, de certa forma, o porquê do espanto com a revista.
Mario traça um mapa da escalada do marketing na política e na imprensa desde a eleição de Collor até hoje. Um dos efeitos colaterais desta influência no jornalismo seria a proliferação de colunas e cronistas, em detrimento das reportagens investigativas, mais complexas, profundas e lentas de serem feitas.
A observação calou fundo em uma cronista amadora como eu.
A cultura de massa triunfou de maneira tão acachapante, que arriscar uma publicação com letras miúdas, poucas e boas fotos e longas dissertações sobre temas não tão urgentes, é como remar contra a maré com a vontade de um suicida. Não é à toa que João Salles, seu fundador, torce pelo Botafogo.
A "piauí" era uma causa perdida, fadada ao ostracismo editorial.
Hoje, suas páginas exibem grandes anunciantes, e a publicação, notadamente, virou hábito para uma parcela pequena, porém significativa, de leitores. Nada comparável à fartura das encadernações de moda, decoração e culinária, mas, ainda assim, um feito.
Em uma época em que ser marginal é mais sinônimo de incompetência do que de heroísmo, a revista conseguiu se popularizar de forma indireta.
Na contramão das regras de mercado, acabou pautando a própria imprensa. Fez isso com Dirceu, Dilma e Ricardo Teixeira; ao mesmo tempo que selecionou artigos surpreendentes, como o do embate darwinista sobre o altruísmo, o da debacle econômica islandesa e o sobre a dinâmica dos fractais.
A massificação da arte e da informação seduz quem produz e consome peças, novelas, livros, jornais e filmes. As pesquisas de opinião dominam o comportamento, a moral, a política e o entretenimento. Cada vez mais, a balança para medir o valor de uma obra é a sua penetração no grande público e o retorno financeiro. É preciso reconhecer o valor de quem fura o bloqueio.
Em um conselho da "piauí", do qual fiz parte por um período, Luciano Huck, também conselheiro, deu uma solução lapidar para o balanço da revista que, naquele momento, insistia em se manter no vermelho. Ele sugeriu a criação de uma segunda revista, a "ceará", repleta de celebridades, fotos, escândalos, receitas e fofocas. A "piauí" seria mantida com o lucro da "ceará".
Luciano fez, com poucas palavras, o raio-X da encruzilhada econômica da alta cultura, do alto jornalismo, da música clássica, do teatro, das artes plásticas, do balé, dos museus e da cultura dita erudita. É preciso produzir chiclete para assar brioches.
O ser ou não ser de qualquer intelectual praticante é produzir algo que agrade a gregos e troianos, que instigue as cabeças pensantes, ao mesmo tempo que alcance as multidões. Esse, não há dúvida, é o milagre de Shakespeare, das tragédias gregas e de grande parte da música popular brasileira, mas não é todo dia que acontece.
A saída ideal é a educação. A "New Yorker" jamais venderá o que os tabloides vendem, mas gente suficiente a consome para que ela continue existindo. Desconfio muito da apologia dos grandes números, da glorificação do "Big Brother", como se o programa fosse um estudo antropológico do comportamento humano. Não é. Ou é, na medida em que tudo é, mas não vale um parágrafo de Jared Diamond.
Existe uma condenação velada à erudição. A exaltação do popular é um posicionamento inatacável. Discordar dela, mesmo que parcialmente, é como discursar em favor da monarquia em meio à Revolução Francesa.
Sinto falta de Benedito Ruy Barbosa e muito me toca a influência de Flaubert, Vitor Hugo e Eça de Queiroz na trama das nove de João Emanuel Carneiro. Reconheço em Harry Potter o valor de Cinderela, mas ainda considero "Providence" um dos maiores filme que já assisti.
A "piauí" galgou seu lugar nos revisteiros dos mais informados banheiros e consultórios médicos do país. No dia que virar uma alternativa xiita nos salões de cabeleireiro, terá feito uma revolução.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 03/08/2012.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

De repente, classe C

Leandro Machado

Eu me considerava um rapaz razoavelmente feliz até descobrir que não sou mais pobre e que agora faço parte da classe C.
Com a informação, percebi aos poucos que eu e minha nova classe somos as celebridades do momento. Todo mundo fala de nós e, claro, quer nos atingir de alguma forma.
Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa exclusivamente dedicados a investigar as minhas preferências: se gosto de azul ou vermelho, batata ou tomate e se meus filmes favoritos são do Van Damme ou do Steven Seagal.
(Aliás, filmes dublados, por favor! Afinal, eu, como todos os membros da classe C, aparentemente tenho sérias dificuldades para ler com rapidez essas malditas legendas.)
A televisão também estudou minha nova classe e, por isso, mudou seus planos: além do aumento dos programas que relatam crimes bizarros (supostamente gosto disso), as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até mesmo personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu.
A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua.
Um telejornal famoso até trocou seu antigo apresentador, um homem fino e especialista em vinhos, por um âncora, digamos, mais povão, do tipo que fala alto e gosta de samba. Um sujeito mais parecido comigo, talvez. Deve estar lá para chamar a minha atenção com mais facilidade.
As empresas viram a luz em cima da minha cabeça e decidiram que minha classe é seu novo alvo de consumo. Antes, quando eu era pobre, de certo modo não existia para elas. Quer dizer, talvez existisse, mas não tinha nome nem capital razoável.
De modo que agora elas querem me vender carros, geladeiras de inox, engenhocas eletrônicas, planos de saúde e TV por assinatura. Tudo em parcelas a perder de vista e com redução do IPI.
E as universidades privadas, então, pipocam por São Paulo. Os cursos custam R$ 200 reais ao mês, e isso se eu não quiser pagar menos, estudando à distância.
Assim como toda pasta de dente é a mais recomendada entre os dentistas, essas universidades estão sempre entre as mais indicadas pelo Ministério da Educação, como elas mesmas alardeiam. Se é verdade ou não, quem pode saber?
E se eu não acreditar na educação privada, posso tentar uma universidade pública, evidentemente. Foi o que fiz: passei numa federal, fiz a matrícula e agora estou em greve porque o campus cai aos pedaços. Não tenho nem sala de aula.
Não que eu não esteja feliz com meu novo status de consumidor, não deve ser isso. (Agora mesmo escrevo em um notebook, minha TV tem cem canais de esporte e minha mãe prepara a comida num fogão novo; se isso não for felicidade, do que se trata, então?)
O problema é que me esforço, juro, mas o ceticismo ainda é minha perdição: levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro.
Ou seja, ao mesmo tempo em que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais de 30 milhões de pessoas -não somos pobres, mas classe C.
Deixa eu terminar por aqui o texto, porque daqui a pouco vão me chamar de chato ou, pior, de comunista. Logo eu, que só li Marx na versão resumida em quadrinhos. Fazer o quê, se eu gosto é de autoajuda?

LEANDRO MACHADO, 23, é estudante de letras na Universidade Federal de São Paulo, mora em Ferraz de Vasconcelos (SP) e escreve no blog Mural, da Folha
Publicado na Folha de S.Paulo, em 15/07/2012.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Nome próprio da cultura

Vladimir Safatle


No Brasil, os debates sobre ação cultural normalmente pecam pelo medo de afirmar as exigências da cultura em voz alta.
De um lado, há aqueles para quem os investimentos em cultura se justificam por permitir o desenvolvimento da "economia criativa". Nessa visão, cultura é bom porque gera empregos, turismo e desenvolvimento econômico.

De outro, há os que veem a cultura como ponta de lança de serviços de assistência e integração social. Mais música e menos violência -é o que alguns gostam de dizer, como se houvesse alguma forma de relação direita possível. O que abre um perigoso flanco: se o índice de violência não baixar, o investimento em música parece perder o sentido.

Por fim, há os que compreendem cultura como um mero complemento para a educação. Todas as ações culturais devem estar integradas em um projeto educacional pedagógico.

Há de lembrar a tais pessoas que a cultura ocidental construiu seu lugar exatamente por meio da recusa dessas três tutelas. Platão e Rousseau, por mais que enunciassem pensamentos distintos, tinham ao menos a similitude de ver a arte como uma pedagogia para o bem-viver em sociedade.

Não por outra razão, um expulsou os artistas de sua cidade ideal e o outro brigava para não abrirem um teatro em Genebra. Afinal, Dostoiévski, Francis Bacon, John Cage e Paul Celan não são exatamente companheiros na arte da descoberta do bem-viver. A arte serve mais para desestabilizar visões de mundo do que para referendá-las.

Já a subsunção das discussões culturais aos imperativos da nova "economia criativa" é só mais uma maneira de justificar a lógica de mercador de certos administradores culturais. Assim, eles podem financiar o que circula mais, já que a alta circulação é o critério fundamental para a avaliação dos processos de produção econômica.

Como Britney Spears sempre circulará mais do que Anton Webern, fica justificada a transformação do Estado em departamento de desenvolvimento de subprodutos culturais para a indústria. Daqui a pouco, teremos baile funk pago pela Secretaria da Cultura (ainda por cima, com a desculpa de que se trata de manifestação popular).

Mas o Brasil mereceria um debate cultural que não precisasse de muletas para se justificar e que não tentasse perpetuar falsos dilemas -como cultura elitista x cultura popular, cultura dos países dominantes x cultura da periferia e outros absurdos do gênero.

Aqueles que acreditam que a cultura serve, sobretudo, para desestabilizar visões de mundo e compreender a força crítica das formas estéticas deveriam parar de falar em voz baixa.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 03/07/2012.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A história de joelhos

Ruy Castro

Biógrafos, editores, juristas e demais interessados na liberdade de expressão reuniram-se ontem na Biblioteca Nacional para apoiar o projeto de lei do deputado federal Newton Lima Neto (PT-SP) propondo-se a corrigir os artigos 20 e 21 do Código Civil, que agridem justamente essa liberdade garantida na Constituição. Pelos ditos artigos, que pretendiam proteger as pessoas simples de exposições indevidas, as figuras públicas, inclusive as mortas, ganharam poder de autorizar ou não os livros que contam suas histórias.

Conheço bem essas "autorizações". Uma semana antes da publicação de "Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha", em 1995, o advogado das herdeiras do jogador -sem ter lido o livro- telefonou para ameaçar a Companhia das Letras com um processo por danos morais e falta de autorização. "Mas", acrescentou, "tem acordo...". Que consistia no pagamento de US$ 1 milhão, na época, R$ 1 milhão.

Significa que, com uma "autorização" desse valor, podiam-se praticar quantos danos morais se quisessem e, no caso, o biografado fosse lamber sabão. Para não abrir um precedente fatal, a editora preferiu o processo, o qual resultou na proibição do livro por um ano, arrastou-se por outros 11 e foi danoso para todos, inclusive para as pobres filhas de Garrincha. Pela ferocidade do processo, que assustou muita gente, o craque deixou de inspirar muitos subprodutos que poderiam beneficiá-las.

Uma biografia se compõe do protagonista, de uns 20 personagens secundários e de 200 ou 300 terciários. Com a interpretação que a Justiça dá hoje aos artigos 20 e 21, qualquer um desses, por mais insignificante, pode alegar que "não autorizou" sua participação ou a de seu pai ou avô no livro, e partir para a extorsão.
A cada "autorização" pedida por um biógrafo, é a história do Brasil que rasteja e se humilha.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 15/06/2012.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Somos todos Carolina Dieckmann; não existem mais dispositivos "pessoais"

Ronaldo Lemos




Mark Zuckerberg não mediu palavras para declarar que a era da privacidade acabou. O diagnóstico interessa ao Facebook.

A empresa, avaliada em mais de US$ 100 bilhões, vive de facilitar o compartilhamento de dados pessoais, de fotos a currículo profissional. Isso na superfície.

Por trás das cortinas, os dados dos usuários são processados, gerando uma biografia permanente que analisa padrões de interação com outras pessoas, sites, buscas, compras e mais. Revela o corpo e a alma da pessoa.

O caso Carolina Dieckmann apenas expõe de forma dramática um problema geral: o que fazer quando a informação é tão fácil de ser disseminada?

Não se sabe ainda ao certo como as fotos da atriz saíram de um dispositivo pessoal (celular, tablet ou computador) e foram parar no espaço público da rede. Essa é a raiz do problema. Não existe mais dispositivo "pessoal". Tudo que se conecta à rede é, em alguma medida, público. O problema é a ficha cair.

Há quatro meses foi descoberto que o iPhone permitia a aplicativos acessar e copiar as fotos nele contidas, sem aviso prévio.

Alguém pode ter sido Carolina Dieckmann sem saber. Em outro incidente, descobriu-se que o aparelho registrava os deslocamentos do usuário, também sem avisar.

Esse é um desafio a ser enfrentado pelo direito. O Brasil protege a privacidade na Constituição Federal.

Mas, paradoxalmente, não há lei específica que regule o tema no país. Com isso, os limites de atuação do judiciário não são claros.

Está em elaboração um anteprojeto de lei para regular a proteção de dados pessoais, feito pelo Ministério da Justiça. Ele não vai resolver todas as questões: a informação vai continuar fugidia.

No entanto, pode servir de indutor para melhorar práticas públicas e privadas no tratamento dos dados.

Como incentivar as empresas de tecnologia (incluindo fabricantes de celulares, provedores e sites) a aperfeiçoar suas práticas de segurança relativas a dados privados.

É uma estratégia similar ao que vem sendo feito nos EUA. A Casa Branca redigiu um documento com princípios de privacidade (ele começa dizendo que a privacidade nunca foi tão importante).

A expectativa é que ajude a promover autorregulação. Se não funcionar, a disposição é adotar uma lei específica por lá também. Até que isso aconteça, a responsabilidade pela proteção dos dados fica em grande parte com o próprio usuário. Enquanto for assim, informação e bom senso são aliados.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 14/05/2012.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Dê um banho na sua criança

Nina Horta



Quem gosta de livros de cozinha vive dependurado em receitas, quer queira, quer não. De várias maneiras, ora passando os olhos distraídos, algumas vezes como se dependesse daquelas ordens para sobreviver, ora lendo, mas com a imaginação à solta, ora conservadoramente ajuizado, com as medidas já postas ao lado da receita.

Já contei muitas vezes que, quando comecei, não tinha a menor noção de cozinha. Como iria casar, imaginei que, sem minha ajuda, o noivo morreria de inanição. Como literatura culinária só existiam as revistas americanas, que, sedutoramente novas, tentavam (e conseguiram) empurrar as famílias ao subúrbio.

Acontece que, se a receita não tivesse uma foto e o nome fosse misterioso, como "Egg Surprise", eu fazia tudo como uma cega esperançosa, sem ter a mínima ideia de qual seria o resultado. Uma vez me matei numa sobremesa para ter até hoje a letra do meu pai sob a receita: "o conhecido pudim de pão".

Com o tempo, perdi a inocência. Era só ler e saber se daria certo ou não. Com bons escritores como Pedro Nava, Proust, Elizabeth David, M.K Fisher, Marcella Hazan, Mara Salles, Rita Lobo, não há problema de visualização. Passam a ideia do lugar, do tempo, do jeito, dos problemas, das correções, do gosto, dos dourados, do úmido e do salgado, num linguajar de todo dia que toca todos os sentidos.

Acho que a graça de uma receita é ver a comida final emergindo dos objetos que usamos, da colher de pau, do processador, do fogo, uma mistura de lembranças de outras mãos lidando com aquilo, dos cheiros, sem nenhuma dúvida, da comparação de livros, de pequenas informações daqui e dali.

A receita geralmente (nem tanto quanto gostaríamos) relata uma experiência do autor, levada a cabo através da prática, dos sentidos, e que nos dá a esperança de copiar e acertar, chegando a um resultado semelhante. Na verdade, a receita não precisa nos imobilizar naquelas poucas palavras, pois é preciso não esquecer o autor, onde estava ele, como trata os ingredientes, a ideia do tempo, do lugar, das influências e até dos filmes, das viagens, enfim, de tudo.

Só que cada cultura manobra seus sentidos e prática de um modo diferente. Isso também é preciso interpretar. No livro "O Artífice", Richard Sennett dá uma receita que arrancou de sua professora persa e que funciona por meio de analogias. Vou editar para caber aqui.

Dê um banho na sua criança (galinha), preparando-a para o novo modo de vida que se aproxima (desosse-a). Trate-a com carinho, vista nela a roupa dourada (doure-a antes de assar) e alimente-a com a comida de que ela gosta, sem exagero (recheie-a). Ela deve estar com frio. Leve-a para um lugar quente (forno), mas não excessivamente quente, pois as crianças têm a pele delicada que pode se romper e a criança pode até morrer (temperatura e o perigo de queimar). Cubra-a de joias e lembre-se: você vai mostrar aos outros a sua pequena (molhos e apresentação).

O mundo está cheio de receitas. É prestar atenção para escolher aquelas que mais combinam com o nosso modo de ser.



Publicado na Folha de S.Paulo, em 09/05/2012.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Inveja dos finlandeses

Antonio Prata

Entro no bar, a vejo, vejo que ela me vê -e, durante o longo segundo que dura o resvalar de nossas pupilas, vivo aquele microdilema da vida social: vou até lá e dou oi ou abaixo a vista e finjo que não a reconheci?
Não lembro seu nome. Marcela? Margarida? Maristela, talvez. Faz uns dez anos, namorou um conhecido meu. Naquela época, dividimos a mesa duas ou três vezes, trocamos algumas frases -nunca os telefones-, mas ela sabe quem eu sou, eu sei quem ela é, e isso é razão suficiente para que eu tenha que dar oi. Ou não?

Ah, ser brasileiro dá um trabalho! Aposto que um finlandês de seis anos já sabe exatamente quem precisa cumprimentar, diante de quem pode passar reto, qual o grau de proximidade que permite apenas um tchauzinho, de longe.

Aqui, contudo, estamos sempre tropeçando nos cadarços desamarrados de nossa cordialidade. Um tchauzinho de longe é quase um insulto. Um oi deve necessariamente ser seguido por uma conversinha sobre o tempo, lamentos sobre o longo intervalo desde o último encontro, uma breve entrevista acerca dos parentes, cônjuges, amantes, amigos, inimigos, o cachorro e o papagaio, promessas de nos vermos mais, um convite para o almoço semana que vem, quem sabe restabelecer aquele futebol das terças, fundar uma revista literária ou voltar pra Caraiva; ah, 1997, aquilo sim é que foi Réveillon!

A brasilidade não admite meios tons: ou se é ou não se é, e com todo o peso de nossa desfraldada sociabilidade sobre minhas cansadas retinas, decido não ser; as volto para o chão, dou uma coçada na barriga, simulo grande interesse no piso, passo reto e sento no fundo do bar.

A culpa, contudo, é como uma espinha na bunda: espeta assim que botamos as nádegas na cadeira, e como o neurótico é um péssimo economista, que prefere pagar dez de juros aos cinco da dívida, tenho a ideia de jerico de ir até a garota -não apenas para dar oi, mas pedir desculpas e explicar que passei reto pois não a reconheci.

Mal termino de cumprimentá-la, vejo em seus olhos o brilho opaco do horror. Claro, ela tampouco pretendia me dar oi -e se um olá de passagem já seria trabalhoso, o que dizer dessa missão diplomática de Brancaleone?

O que se segue é uma cena de cartoon, os dois fugindo do silêncio como personagens subindo uma escada a desmilinguir-se: falamos sobre o tempo -"O dia mais quente em março, desde 1943!"-, sobre "o pessoal" -"A Ju? Agora, assim, não tô lembrando..."-, ela me diz que vai para o interior, na Páscoa- "Nossa, Páscoa, já? O ano voa!"- e que sua filha, Gabriela, vai ficar com a mãe. Empenhados em alimentar o papo, apressado e chocho como uma fogueira de jornais, não deixamos pausa para uma retirada. Estamos num labirinto, afundando na areia movediça da afabilidade e é ao me ouvir elogiando a qualidade das estradas paulistas que me dou conta: é tarde demais, jamais conseguirei romper aquele laço, estou condenado a continuar a conversa para sempre, adotar a tal Gabriela, aceitar a nova sogra, ir pro interior na Páscoa, conhecer a Ju -e torcer para que, até lá, eu lembre o nome daquela mulher. Marcela? Margarida? Maristela, talvez.

Às vezes, tenho inveja dos finlandeses.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 07/03/2012.