Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Retirada de objeto

Sete meses de relacionamento intenso. Muita paixão no começo. Muitos encontros, muito contato. Muito sexo, sobretudo. Também, muito desgaste. Especialmente para ele, acostumado à liberdade. Alegou estar sufocado. Para ela, tudo aquilo era novidade; encontrava-se submissa de corpo e alma. Perdidamente entregue, envolvida pelo romance avassalador. Jamais imaginaria que ele, num ímpeto inexplicável, colocasse um ponto-final em tudo.

“Paramos para retirada de objeto dos trilhos”.

Ele olhou para o relógio e rogou praga. “Porcaria! Sempre assim: problema técnico, lentidão, atraso”. O coelho de Alice parecia gritar no seu ouvido: “Estou atrasado, estou atrasado, estou atrasaaaaado!”. Pensou pela enésima vez no telefonema da noite anterior. Ela, longe da pobre coitada de anteontem a mendigar mais uma chance, pediu-lhe um encontro usando palavras decididas e voz firme. Nos sete meses em que estiveram juntos, costumavam se encontrar na hora do almoço, sempre no restaurante a quilo próximo ao trabalho dela. Praticamente engoliam a comida e corriam para o hotelzinho ao lado, um manjado hospedeiro de prostitutas e drogaditos. Algo irrelevante frente à urgência de se amarem loucamente, ainda que por poucos minutos.

“Paramos para aguardar a movimentação do trem à frente”.

 “Diabos! Vou chegar atrasado ao trabalho”, advertiu-lhe o coelho de Alice. Olhou para o casal de jovens estudantes sentado em assento preferencial – “juventude alienada!”, condenou. O garoto de brinco indígena e a menina de espinhas passageiras e beleza promissora vestiam uniformes de colégio batista e se lambuzavam numa interminável sucessão de beijos de novela – “juventude indecente!”. Para os dois, a lentidão do trem era mais que bem-vinda. Certa inveja foi inevitável, assim como o desejo de um último encontro... “Não, chega!”, determinou a si próprio. “Ordem dada, ordem cumprida!”. Até porque seria impossível: precisava retornar de imediato ao trabalho (andava mal cotado com o novo chefe) e o encontro seria em plena estação do metrô, perto das catracas. Aliás, por que ela queria vê-lo na estação do metrô? Não fazia sentido. Talvez por duvidar que seus corpos tolerassem inertes à proximidade recíproca. A sós, sem a patrulha de uma multidão, certamente não suportariam o clamor da lascívia. Ou, talvez, ela realmente almejava uma conversa somente: as últimas palavras de lamúria, as derradeiras juras de amor eterno, a finalíssima tentativa de reconciliação. Quem sabe, ainda, tencionava um grand finale colérico em que jogaria na sua cara o quão cafajeste e repugnante se revelara. A estação seria propícia a um escândalo passional. Fosse o que fosse, fizesse o que fizesse, a respeitaria, resignado.

“Os trens estão com velocidade reduzida e maior tempo de parada”.

Olhava seguidamente para o relógio ao mesmo tempo em que a voz decidida do telefonema e a voz insolente do coelho confundiam-se em sua cabeça. Ela estava eufórica com namoro, lembrou-se. Chegara a sugerir casamento, o que lhe fez concluir que as coisas haviam passado dos limites. Estranhíssimo o tom seco, quase indiferente, com que falou ao telefone – “Quero que me encontre na estação República, amanhã, às treze horas”. A voz entoou sólida, com autoridade, sem pestanejar; quem falava era uma pessoa absolutamente sabedora das suas intenções. Arguida, não deu pistas do que tencionava fazer ou mostrar. Apenas insistiu para que ele não faltasse, “custe o que custar”. Ele, acometido de um ligeiro peso de consciência, jurou que só não honraria o compromisso em caso de sequestro ou morte. Ela repetiu a última palavra – “morte” –, despediu-se com um monossilábico “tchau” e desligou. Treze horas, mesmo horário em que se encontravam no restaurante a quilo. A súbita imagem das prostitutas do hotel causou nele uma excitação jamais sentida. Por um instante, desejou que ela fosse uma daquelas prostitutas.

“Paramos para retirada de objeto dos trilhos”.

Até o casal de estudantes já se incomodava com a situação. O som de um zunido elevou-se à medida em que os passageiros multiplicavam resmungos. Ameaças de processar a companhia de metrô somaram-se às rogações para que esposas e patrões fossem indulgentes ante o atraso. Distanciado dos lábios da moça de beleza promissora, o rapaz de brinco indígena foi capaz de balbuciar algumas frases: “Já ouvi dizer que essa estória de objeto nos trilhos é lorota. Na verdade é gente que se joga, se mata. Tem suicídio à beça no metrô, sabia?”. A garota, cansada e faminta, não esboçou reação diante do mórbido relato. Ao contrário do nosso protagonista, cuja espinha gelou e o coração quase saiu pela boca. Após retomar o fôlego, olhou para o relógio em atitude mecânica, sem atentar para as horas. A fala resoluta da mulher na véspera soava como uma bomba. Afinal, o encontro na estação República passara a fazer algum sentido.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Cidadão eu


Acordo sempre no mesmo horário. Escovo os dentes e tomo o café de costume. Leio o jornal e reajo às notícias. Impiedoso, rogo pragas e penas aos culpados. Culpo a todos: policiais, estudantes e viciados, brancos e negros, presidente, ex-presidente e outro ex-presidente, ministro na berlinda, ex-ministro disso e daquilo, técnico, zagueiro e bandeirinha, evangélicos, gays e até o Papa.

Clamo pela moral e pelos bons costumes, ainda que abomine a expressão. Não concordo com a extradição de uns, lamento a expulsão de uns tantos, execro a permanência de outros. Discordo do arrocho, mas discuto com a diarista se o reajuste é acima da inflação. Culpo o governo pela corrupção, culpo a oposição pela corrupção, culpo os eleitores pela corrupção. Todos iguais, todos iguais!

Preparo-me para mais um dia de trabalho. Penteio o cabelo em estilo clássico. Uso roupas apropriadas. Vou trampar de bike, depois tomo os meus gorós. Passo o dia julgando quem atravessa meu caminho. Elejo inimigos. Transfiro inimigos à posição de amigos e vice-versa. Empunho a espada da indignação irada. Seleciono quem é “do bem” e quem é “do mal”. Sorrio ao lembrar que um dia ajudei o cego a atravessar a rua.

Alerto minha esposa sobre o recato. Tenho ciúmes às vezes, mas não aceito machismo. Sou adulto, vacinado, civilizado, cosmopolita e moderno. Adotei um poodle órfão. Jogo lixo no lixo: plástico, vidro, papel, orgânico e inorgânico. Já fui contra Belo Monte, agora não sei. Luto pelo bom senso e pelo bom gosto, jamais pelo senso comum.

Assisto aos problemas da humanidade sentado no próprio rabo. Peço menos arrogância e moralismo à medida em que me enxergo humilde e libertário. Despejo minha sabedoria no face; dependendo, vou pro blog; com preguiça, eu tuíto. Opino e participo. Denuncio a mídia sem tirar os olhos dela. Pagador de impostos, exijo respeito e serviços de qualidade. Vocifero com a atendente: amaldiçôo a musiquinha e ameaço a empresa que vendeu e não entregou.

Abro a porta e sigo a vida. Agora, sim. Sinto-me pronto para odiar os conservadores e operar a revolução.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O ponto

Por mais que esperasse, não conseguiu conter o susto quando o resultado do exame surgiu-lhe como um soco na cara. Não havia mais dúvida. A partir daquele ponto sua vida mudara para sempre. Sua vida se dividia em antes e depois daquele ponto. Logo vieram as perguntas, bem mais intensas do que nos tempos de incerteza. Como reagirão à notícia? Família, amigos, ele; sobretudo, ele. Como prosseguir com aquilo? Como não prosseguir? Que remédio senão aceitar? Pensou na dor. Imaginou o ponto em seu corpo. Um ponto em forma de célula, a se dividir, a se multiplicar, a se ampliar tornando-se outra vida dentro e distinta da sua. Uma sensação estranha de sobriedade invadiu-lhe a alma. Sim, há de ser bom. Quantas lições trará! Devo amá-lo. Haverá um espírito a animar o ponto? Conformar-se é o que resta. Eis a realidade. À luta! Afinal, é a vida...

Por mais que refutasse a possibilidade, surpreendeu-lhe a calma com que escutou o diagnóstico ministrado em jargões médicos. Não havia mais dúvida. A partir daquele ponto sua vida mudara para sempre. Não gostou da imagem: o ponto a separar vida de sobrevida. Logo vieram as perguntas, bem mais intensas do que quando ainda restava a esperança de ser somente uma falsa impressão. Como reagirão à notícia? Família, amigos, ela; sobretudo, ela. Como enfrentar aquilo? Como não enfrentar? Que remédio senão aceitar? Pensou na dor. Imaginou o ponto em seu corpo. Um ponto em forma de célula, a se dividir, a se multiplicar, a se ampliar levando sua vida a um ponto-final. Uma sensação estranha de sobriedade invadiu-lhe a alma. Sim, pode haver um lado bom. Quantas lições trará! Devo amar-me. Haverá um espírito para além desse ponto? Eis a realidade. À luta. Fazer o quê? É a vida...

Como é bela a vida.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Latejar

Misturadas, água e lágrima escorriam pelo corpo. O ódio e um sentimento obscuro a mostrar-se como culpa – “Por que culpa, meu Deus?” – escorriam pela alma. Cabeça a latejar. O tapa, o tapa, o tapa. Em compasso com o palpitar nervoso do coração. Também pulsava, ininterrupta, a sentença: “Vagabunda! Vagabunda!”. Maldito mantra. Teria quisto, merecido, provocado? “Tantas perguntas, meu Deus!” Era lindo, mas não o queria. A amiga, sim. Quem sabe, sendo lindo, devia também querê-lo. Devia, devia? Só que a amiga o viu, chamou-lhe, era dela. No entanto, apontou-lhe o banco de trás do carro importado. Banco de couro. A si, mandou sentar-se na frente. Mandou, mandou! Do banco de couro, sorriu amarelo à amiga: “Que posso fazer, ele mandou”. Só carona, mais nada. Fantasia emprestada, assim, destruída. Será sangue esse vermelho? Aceitou a carona, ficaria em casa. Da amiga, sim, seria o carnaval. Ducha fraca, nem o corpo lavava.
Ecoava a voz do irmão: “Puta, sua puta!”. Retrucava: “Quem é você?”. “Sou homem, posso!”. Posso, posso, posso... Latejava o tapa que se seguiu à recusa. Àquele seguiu-se a voz que vibrava, no ritmo da dor: “Para todos, menos para mim?!”. Não, não queria. Não assim. Era lindo, mas não assim. A imagem da amiga, derrotada: “Escolheu você; é seu o carnaval”. O carro, tão raro no subúrbio. Maldito banco de couro. Pediu que a deixasse também; indiferente, partiu. Ameaçou gritar, saltar, ceder. Lindo, lindo... Então, o tapa – “Para quê o tapa, meu Deus?” –, o estrondo, a dor, o medo, a entrega. O toque forçado, a carne invadida, o gozo sem gozo, a alma humilhada... a fantasia rasgada. Fantasia? O tapa latejando qual a voz da mãe: “Quer emprenhar de moço rico, quer?”. Nem pensar. Tirava, tirava. Só queria viver. Ser feliz... feliz. Sumir dali de uma vez por todas. Queria escorrer pelo ralo. Como a lágrima que caia dos olhos e a água, do chuveiro. Inútil. Continuava a se sentir imunda.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

As cismas do Chico Margoso

Chico nasceu em tempo longínquo e lugarejo idem. Sétimo de família honesta, feita na lida sol a sol, Chico contou o exato filho do meio de dona Oscalina mais sô Jeromo. Antes e adiante dele vieram seis. Quem é escolado na cidade não enxerga o engenho da sorte. Ser o mediano de treze irmãos é condição sabida do dedo agourento do destino. Pois o Chico fez-se feio qual o cão: vida toda mirrado, feição de bicho do mato, fuça de caitatu, sobrancelha una, sem entremeio de pele, boca de velha banguela, quase todo pelado de cabeça e peito, olho zambaio. Não era só feitio de menino por pouco crescido, à espera do tempo que lhe trouxesse formosura alguma. No caso do Chico, o tempo passou demais sem lhe consertar o aspecto, sem lhe amparar em parca boniteza. Não tardou, a molecada da vila impingiu no coitado a alcunha de margoso que, à primeira zanga de contrariedade, pegou para nunca mais sair. Assim registrou-se no conhecimento do povo, Chico Margoso.
Ainda novo, mas já formado de labutar em ajuda do pai e de ter couro de levar guasca na bunda para remédio de arte feita, o Chico revoltou-se do fadário. Desatou a rogar pragas a torto e direito e, sacrilégio maior, a maldizer o todo-poderoso, baldado de gozo das coisas por conta de tamanha fealdade. No exato dia em que completou quatorze anos, veio à mente daquele hominho parvo uma ideia que lhe enfeitiçou o juízo qual façanha do tinhoso: só tinha morte honrada de homem macho, ainda que vivesse vida longa, vaso ruim, caso se casasse com uma paraguaia e matasse um homem. Não importava a ordem. Fosse qual fosse a paraguaia. Fosse qual fosse o homem.
Com dezoito anos, caiu de amores tão-logo avistou Guadalupe, filha do peão recém chegado de bandas mato-grossenses. Não era malfeita de cara e corpo, tampouco ostentaria coroa de misse. A rapariga era, por assim dizer, nem cheira, nem fede. Só que para o Chico era a mais graciosa criação de nosso senhor. Tanto insistiu que o velho peão seu pai, viúvo de nome Ambrósio, agradou-se do Margoso e concedeu a mão da filha em casamento. De mais a mais, Guadalupe era fraca das idéias, não lhe entrava ensinamento fácil na cachola, e o peão avistou em Chico amparo à descendente amalucada, além de liberdade para que ele próprio vivesse derradeiras aventuras. Só não revelou ao futuro genro o fraco da filha pancada: moça, moça, já não era, e costumava não resistir a homem feio. Explicado esteja.
Chico casou-se no dia em que seria o terceiro mais feliz de sua vida. O segundo foi o seguinte, o da lua-de-mel, não por causa apenas da luxúria consentida pela santa madre igreja, mas pelo que descobriu da boca da esposa. Confessou-lhe Guadalupe, ainda no leito de núpcias, ato contínuo à consumação do matrimônio, que a mãe morrera ao colocá-la no mundo, fardo pesado a carregar na alma. Disse também – motivando o regozijo do marido – que o parto e a morte não se deram em Pontã Porã, onde vivia a família, mas em súbita passagem por Pedro Juan Caballero. Sem entender o porquê, Guadalupe notou lágrimas a quedarem do estrábico cônjuge, emocionado de dar pena por sabê-la paraguaia pela terra onde caiu o umbigo, embora o sangue nele a jorrar fosse seu compatriota.
Anos passados, assumida a rotina de casal, eis que o Chico ao entrar em casa, retornado da labuta, deparou-se com cena terrível. Guadalupe na cama, como Deus lhe fez, de saliência com um caboclinho que elevava o Margoso a galã de novela. Tanto que Chico sentiu mistura de ódio, com desonra de corno e pavor da criatura que por instante duvidou ser do seu planeta e de sua espécie. O sujeito, ligeiro que só, sem esperar por nada, nem bronca, nem luta, sumiu em disparada janela afora. Visse o povo aquilo assim, entidade do demo, nu em pelo, em desabalada carreira, juraria tratar-se de chupa-cabra legítimo. Passado o susto do feioso e da vergonha, subiu no Chico vontade bruta de derriçar a libertina guarani, despelar todinha como se faz com milho. Espiou de través e enxergou a garrucha herdada do pai para caças e proteção do lar. Tomou-a em mãos e, tremendo mais que vara verde, percebeu o dedo empurrar o gatilho. A mira errou por muito, mas a bala varou pelo buraco da janela e, por explicação que ciência desconhece, feriu de morte o caboclinho fugitivo, afastado uma légua.
Nosso protagonista podia ter matado a esposa, não o fez por Deus. Dito assim, até soa profanação: Chico teve certeza de que suas cismas vinham do pai eterno, não do belzebu, como suspeitava. E a derradeira cisma era certa: matar homem, não mulher. Salvou-se Guadalupe com graça divina e o Chico, agradecido, perdoou a mulher, assim como foi perdoado pelos senhores de toga com uma prosa de legítima defesa.
Faz mais de ano que o Chico matou o homem. Foi o dia mais feliz da sua vida.
***
Em tempo: Chico Margoso realmente existe e, de fato, sempre falou das tais cismas. Pelo que sei, todavia, Chico jamais matou nem esposou alguém.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Clara vai às compras

* Adaptado do texto "Amos nos tempos de câmera"- Cena II, de Ana Rüsche, (Dramamix 2007 - Coleção Primeiras Obras, 10, Ivam Cabral, organizador. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo)


Poucos lugares são tão insalubres quanto a praça de alimentação de um shopping center na hora do almoço. Para Clara, o almoço é um afazer tormentoso, não um momento de descanso. Preferiria trabalhar as oito horas ininterruptamente. Após longos dez minutos de tentativas infrutíferas, radicalizou: sentou-se no chão para devorar o insosso fast food. Mais do que o desconforto para comer, incomodava-lhe a câmera no canto alto esquerdo; parecia persegui-la, vigiando sua conduta, julgando seus modos “à mesa”. Se falasse, a câmera diria: que homem é capaz de suportar uma mulher que come sentada no chão de um shopping center?

Finda a refeição, depositou o lixo no local apropriado, tal qual um adestrado frequentador de McDonald’s. Pediu um café no quiosque ao lado e abriu o livro cujas páginas percorria a duras penas. Não que lhe fosse custosa a leitura. Pelo contrário: adorava livros e, em especial, adorava Gabriel Garcia Márquez. Mas era obrigada a admitir: esse texto não lhe apetecia como os demais. Sobretudo, pela desagradável familiaridade. Quando, enfim, vingará o amor entre Florentino Ariza e Fermina Daza? Intrusivos, os personagens remetiam à própria busca vã de Clara em manter o amor que supunha ter construído. Não obstante, depois da briga de ontem, tudo parecia em ruínas. Ele até admitira a existência de uma outra. Seria verdade? Ou uma jogada infantil para lhe causar ciúmes? Se fosse verdade, será que ele realmente amava a outra? Como ela seria? Clara sorriu, nervosa, ao pensar que melhor seria identificar-se com Romeu e Julieta; estes, pelo menos, sacrificaram-se para eternizar o amor. Melhor a morte do que toda uma vida de desencontros.

Resolveu dar uma volta pelo shopping. Quase todas as lojas tinham promoções nas vitrines. Imaginou que ela própria, caso não reatasse seu namoro, seria também uma espécie de produto em promoção. Em todas as lojas via câmeras que captavam sua presença e a julgavam. Decidida a voltar ao trabalho, Clara descia rapidamente as escadas rolantes rumo à porta de saída, embora sobrasse um tempinho para gastar com indagações íntimas sobre o amor - será que ele ama mesmo a tal moça, será que me amava ou, apesar de tudo, ainda me ama? Sentia-se cada vez pior à medida em que observava as mercadorias expostas. Via-se como uma TV de plasma, um par de tênis ou um colar de brilhantes, à mostra, tentando provar-se atraente, valorizada e ao mesmo tempo acessível ao homem que lhe recompensasse com afeto, atenção... amor. Mas que diabos, afinal, significa amor?

De súbito, a loja de roupas íntimas sugou-a para dentro. Mal dera o primeiro passo, a maldita câmera de segurança voltou-se a ela, inquisidora: “o que faz aqui uma mulher solitária?” Calcinhas e baby-dolls dirigiram-lhe outra pergunta: “você nos deseja como armas?”. “Sim!”, respondeu resoluta, encarando a câmera como quem enfrenta a um inimigo mortal. Autoconfiança, já lera em alguma revista no cabeleireiro, era a alma do negócio. Hoje, posso até ser uma mulher solitária; mas, quem sabe, aquela lingerie não mudará o curso da história. Ato contínuo, lembrou-se das noites que passara com seu amado, das mãos argutas retirando seu sutiã. Sim, se o sutiã fora protagonista em tantos momentos, por que em outros não seria aquela lingerie?

Perdida em quimeras, Clara mal notou a aproximação da atendente. Num rompante, estava à sua frente uma sílfide e, com ela, uma sensação arrebatadora de impotência. A belíssima jovem, ostentando longos cabelos negros e sorriso encantador a deixou em pânico ao decifrar seus mais íntimos devaneios: “Gostou da lingerie, não foi? É infalível, já experimentei. E está em promoção”. A câmera, zombadora, voltou-se para Clara às gargalhadas: “Percebe, minha amiga, não basta valorizar-se como produto; é preciso enfrentar a concorrência”. Clara viu na atendente a dita cuja que lhe roubara o amor. Aliás, seria mesmo amor? Fitou-a, em inútil tentativa de se revelar soberana, mas incapaz de esconder a fragilidade. “Sim, gostei...”. A frase incompleta chocou-se como um desastre automobilístico na fala da atendente, endereçada ao homem que acabara de chegar. “Oi, amor. Espere um pouquinho, estou atendendo essa senhora, logo vamos almoçar”. Clara olhou para trás e a imagem a nocauteou como se fosse um cruzado no queixo. Não teve tempo para simular o semblante de quem estava sob o controle da situação. A única reação possível foi mudar a direção do olhar, buscando desesperadamente esquivar-se da atendente, do homem, da lingerie e da câmera. Mesmo cabisbaixa, não conseguiu deixar de ler a os dizeres no balcão: “Sorria, você está sendo filmado”.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Pensamentos de Metrô


Lotado, bosta! De novo. É a terceira vez nesta semana que esta merda está assim. O pior é que o funcionário não vai me dar uma passagem para voltar. Até já sei a desculpa: “não é problema técnico, mas de superlotação decorrente do horário de pico”. Puta que o pariu! E os palhaços aqui ainda têm que ficar escutando propaganda do filho da puta do governador: “o metrô melhorou”, “rapidez, conforto, comodidade”. Queria ver se aquele vagabundo colocaria a mãe dele para pegar metrô às seis e meia da tarde. Anda de helicóptero o salafrário.

Paciência, paciência. Lembre-se que estresse causa enfarte. Por mais que demore, dá tempo de estar em casa para ver o jogo. Tomo um banhão, abro uma cervejinha trincando de gelada e boa. Um pouco antes do jogo ainda peço uma pizza. Eu mereço.

O foda é essa lotação. E esse cara aí na frente, como fede! O desodorante deve ter vencido há umas duas horas. Pelo menos tem essa loirinha gostosa para ficar apreciando. Oh, lá em casa! Deve ser muito louca na cama essa mina. Mas também tem jeito de ser chata pra caralho. É do tipo que sabe que é gostosa e fica fazendo pose. O duro é que é gostosa mesmo.

Lá vem outro trem. Nesse eu ainda não entro, quem sabe no próximo. Bem que eu podia ter ido a pé. Não, pensando bem não seria uma boa. Tem um monte de maloqueirinho, nóias, bandidinhos nas ruas a esta hora. É isso aí: espera que a gente chega. Um dia chega. Paciência, paciência.

Porra, bem que o Corinthians podia ganhar hoje. O jogo de volta é no Pacaembu, lá a gente arrebenta. Nas bilheterias eu não consigo comprar ingresso nem fodendo. Será que compensa comprar de cambista? O filho da puta deve cobrar uns 500 paus se bobear.

Chegou. Esse empurra-empurra é foda, fica um encouchando o outro. Bem que a loirinha podia estar aqui na minha frente em vez desse cara fedorento. Oh, azar do cão que eu tenho! Chegando em casa vou tomar um puta banho.

“Calma aí, caralho! Vão acabar derrubando alguém nos trilhos!”

“Oh, cidadão! Não vê que tem criança e gente idosa aqui?!”

“Idosa é a puta que te pariu. Eu sou da melhor idade!”

Quá-quá-quá! Pelo menos a gente se diverte de vez em quando. A velhinha não gosta de ser chamada de idosa. “Idosa é a puta que te pariu”. Quá-quá-quá!

Pronto, entrei. Estou me sentindo uma sardinha em lata. Pela lotação e pelo futum desse porco aí. Ainda bem que só fico aqui por uns 20 minutos. Tá acabando, tá acabando. Paciência, pacieeeeeência! Governador filho da puta! Tomara que tome no cu bonito nas próximas eleições, esse merda. Imagine se em vez de ficar gastando esse rio de dinheiro em publicidade – pago por mim, inclusive –, esse vagabundo investisse no metrô... Mas, é claro: a mãe dele não anda de metrô!

“Não impeça o fechamento das portas.”

Puta merda! É foda! Será que o imbecil pensa que as pessoas impedem o fechamento das portas por sacanagem? Oh, anta: as portas não fecham porque as pessoas não estão cabendo aqui dentro. Jumento!

Porra, a gostosinha vai descer. Sabe ser gostosa, hein. Ainda bem que o fedorento foi lá para o outro lado. Será que é parente de gambá? Putz, será que tem cerveja na geladeira? Senão, preciso comprar. Ver jogo sem cerveja não dá. Queria umas seis latinhas: três para o primeiro tempo, três para o segundo.

Caralho, que calor! Nem o ar dessa merda funciona! E essa bicha, sentou no assento preferencial e faz de conta que não vê a senhorinha ali em pé. Quer dizer, a representante da melhor idade. Tinha que ser viado mesmo! Devia ter segurança do metrô para arrancar esses filhos da puta na paulada!

Ufa, está chegando! Quero ver eu sair daqui com essa multidão querendo entrar. “Calma, calma. Primeiro os de dentro saem, depois vocês entram”. Pronto, consegui. Acabou-se a saga do dia.

As chaves, as chaves... Ah, estão aqui. Que alívio!

“Oi, amor. Tudo bem? Como foi seu dia?”

“Tudo bem, morzinho, tudo bem. Quer dizer, o de sempre. Será que tem cerveja na geladeira?”